quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Câmara de Ubatuba, aniversário indecente

                                                  reprodução
Regimento Interno da Câmara Municipal de Ubatuba. - Imagem: © Reprodução
Fez aniversário no dia 20 deste corrente mês de agosto o arquivo ri_prov20070820.pdf, oferecido no site da Câmara Municipal de Ubatuba no box "Legislação" à guisa de Regimento Interno. Parece mais uma apostila escolar, toda rabiscada e com imprecisões que permitem interpretações ao sabor da ocasião. É algo para envergonhar ubatubenses, ubatubanos e caiçaras em geral, mas especialmente para envergonhar o presidente e os vereadores do Legislativo municipal, bem como o diretor administrativo, de quem é a responsabilidade de prover um documento decente.
A Câmara em alvoroço, 60 por cento de vereadores afastados, seis suplentes no exercício do mandato oferecendo às terças-feiras deprimentes espetáculos de despreparo, retorno dos seis titulares aos cargos (como já havia antecipado aqui, o a quo manteve a tradição), e cuida-se aqui de um pequeno detalhe, o Regimento Interno? É, entretanto, um detalhe que disciplina o funcionamento da casa e é revelador do descaso da Mesa da Câmara, que deveria cuidar no mínimo do básico, que é a organização administrativa. Nem se fala aqui dos deveres políticos, mas tão somente da correta utilização dos recursos públicos que mantêm uma casa legislativa nada barata, que ocupa dois prédios alugados (e que deixou ao abandono o prédio histórico) e que paga salários a tantos funcionários, além dos terceirizados e fornecedores contratados. Se nem o dever de casa a Mesa faz, o que esperar quanto ao restante? Devo dizer palavra em minha defesa: da primeira vez que abordei o tema, o furacão ainda não tinha destelhado os vidros do Legislativo de Yperoig.
Há mais a dizer. Em vez de delírios com portais na rodovia Osvaldo Cruz, de um suplente-vereador novamente suplente sem noção, como diz o Marcos Guerra, em vez de enxurros de moções, levar a sério a discussão sobre turismo em Ubatuba é necessidade de hoje, de ontem, não pode esperar os noveis vereadores aprenderem o que já deveriam ter aprendido sobre o funcionamento da casa legislativa, nem, por causa dos processos a que respondem, os ex-afastados deixarem as questões de Ubatuba como estão, para ver como é que ficam. Chega de mais do mesmo, não é mesmo? Publicidade: publicar um Regimento Interno decente e ativar o link "Arquivos anexados à Ordem do Dia", contendo os pdf dos projetos, suas justificativas e, depois, a tramitação das matérias, é para ontem, é o dever de casa não cumprido, e isso não tem a ver com qualquer furação que se abata sobre a Câmara Municipal, onde os funcionários, vereadores e terceirizados continuam a receber salários, e os contratos continuam a ser pagos. Não se trata, portanto, de tripudiar ou de bater em cachorro morto. Trata-se de uma casa viva, que acaba de “reempossar” seus ex-afastados. E é necessário ter uma Casa Legislativa com dignidade de tal, e não uma Casa de Mãe Joana. Porque a outra opção, já que não fazem o dever de casa, que é cortar salários, é impossível.

-Texto originalmente publicado na revista eletrônica  O Guaruçá, em 25/08/2010  
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

De Viseu a Ubatuba, como cuidar dos miúdos


Peço-te desculpas, Pinto Durão, pela demora em responder-te. Sinto-me desvanecido com tuas gentis e graciosas palavras, as quais agradeço. Hei de concordar contigo que algo cheira mal, e a bem podre, no reino das terras de Coaquira, podridão que atribuo à política local, que chamo de nanica. Também aceito que é comum vermos brandida a espada da justiça e da moral em meio a esse putrefato pano de fundo, mas não aceito incorrer em generalizações que, por sua especial natureza, são sempre perigosas. Nos fatos narrados, conhecidos e reconhecidos até mesmo aqui, no pé do morro do Funhanhado, a indevida interferência no processo eleitoral que deu origem a tudo isso aconteceu sim, como se fosse apenas mais um loteamento irregular, só que desta vez de cargos num Conselho de nobres funções.
Digo-as nobres, Durão, porque são funções que se destinam a proteger nossos bens mais preciosos, que são nossas crianças e adolescentes, depositários da esperança de um futuro melhor do que nosso lodacento presente, tal como manguezal degradado onde se salva apenas um ou outro siri. E ainda bem, convenhamos, ó Durão, que um desses siris é o nosso O Guaruçá, único periódico local que se presta a debate de ideias e veiculação de informações sem depender da chancela oficial dos ocupantes do Paço, seja ele o da presidência do Concelho ou seja ele o Anchieta. Que possibilita, pois sim, que respeitosamente nos estranhemos no que reciprocamente não concordamos, e nos coloquemos lado a lado, no que concordamos, tal como no título de sua pública epístola. Presente o respeito, nem tu, Pinto Durão, atrás de mim, nem eu, Machado, ao fim e ao cabo, mais afiado que espada, atrás de ti.
A leonina encíclica papal que citaste, Das Coisas Novas, prenunciou alguns evidentes exageros, como a tutela soviética sobre seus miúdos, que os levou mais para o coletivo laico (e mesmo ateu) do que para a família. Mas foi condescendente com o que, no seio da Europa central, aconteceu depois, quando a máquina nazista, querendo perpetuar uma raça que chamava de pura, perfilava mães como reprodutoras, e seus mais destacados espécimes machos para que gerassem rebentos de propriedade do governo. Quando essa mesma máquina cometeu o mais descarado genocídio, ceifando miúdos a granel, os guias espirituais mantiveram-se calados. Um é até candidato a santo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: intervenção do Estado em questão de tal delicadeza, só se for em defesa das crianças e adolescentes, e nada mais.
Sabemos cá, Durão, nestas terras d´além-mar, do cuidado que tendes com vossos miúdos, especialmente na vossa terra de Viriato, terror romanorum. Ubatuba, com seus 700 km² e uns 80 mil habitantes, e Viseu, com seus 500 km² e uns 99 mil habitantes, têm profunda diferença: poucos são os imigrantes, nas terras portuguesas. Muitos os são aqui, vindos de vários Estados, com destaque para Minas Gerais. A falta de apego à terra, a luta pela sobrevivência, acabam muitas vezes por destruir laços e malhas sociais, com reflexos na constituição das famílias, problemas que, se os tendes aí, são mínimos.
Jamais serei tão ácido como o saramago que teima em nascer entre ruínas, nem de letras tão brilhantes como o Saramago que colocou o mundo lusófono no panteão do grande prêmio inventado pelos europeus inventores da dinamite. Mas guardo, de ambos, um pouco: da planta, o nascer e renascer nas ruínas históricas e recentes de Ubatuba. Do escritor, a negação a muitos dos valores professados por teus apreciados guias espirituais. Comunista declarado ele, de matriz socialista eu, por paradoxo apreciadores ambos duns escritos doutorais agostinianos, que do nascimento nos sabíamos (eu, por mera sorte, ainda sei, pois ele cometeu a impropriedade, a falta de educação, de ir-se) inter feces et urinam. Dessa condição igualitária do nascimento desdobram-se questões outras, como a dos cuidados com nossos miúdos. Cá, a pobreza, a desigualdade, o descaso, a deseducação, espancaram o valor família, a família como um ninho, pelo qual tanto se bate, em conceituação científica e humanitária, minha Marlene. Aí, do outro lado da poça atlântica, cultivam-se a educação e a mínima igualdade económica (falamos, é claro, do pós-salazarismo e da Comunidade Europeia).
Corremos cá o risco de, literalmente, assim viver, em meio a fezes e urina, como bem demonstrou o grande lusófono em sua alegoria que intitulou de ensaio, sobre a cegueira. É como vivem alguns de nossos miúdos, abandonados na escatologia do descaso, da miséria, da deseducação, da pobreza d´alma, seja o que for que isso - a alma - signifique. Cá, portanto, é necessário tutelar o básico, o direito à vida, de nossos miúdos, o que se tenta fazer com Conselhos institucionais, criados por já vintenário estatuto.
Adquirimos uns maus hábitos lusitanos, de criar nossos filhos a sopapos, pois nem nos tempos do grande Cunhambebe, nem inda hoje, no Xingu, os nativos daqui espancam crianças. O cauim não engendrava violências domésticas, como a cachaça logo aqui introduzida, quinhentistas tempos ainda. Redimiram-se os portugueses, inda que à custa de férrea vontade iluminista aliada ao porrete implacável do juiz da Comunidade Europeia, dos maus-tratos aos miúdos, trocando tamancas e cintos por lápis e educação.
Então, pois, é o que defendo, deve sim ter o Estado alguma prudente tutela sobre nossos miúdos, para protegê-los. E, por consequência, não usar essa tutela, os Conselhos Tutelares, para nanica, rasteira politicagem.
Não conheço tão profundamente a política da terra coaquira, pois, sabes, apregoo sempre, cheguei há pouco de fora. Não sei então dizer do agrado ou desagrado que tal ou qual vereador, eleito antecipadamente presidente, vice ou o que seja, cause nos que estão à frente do Poder Executivo daqui. Esses mistérios resolvem-se nunca, Durão, pois, sabes com certeza, adversários de ontem podem ser aliados de hoje e desafetos de amanhã. Ou, pelo outro lado, o adversário de hoje é o potencial aliado de amanhã, assim como o apaniguado de hoje pode ser amanhã o detrator. Durão, argumentavas a respeito da inclusão do prefeito no rol dos afastamentos. Pois, ora, veja o ocorrido, que corrobora meu olhar sobre a política destas terras, nanica, naniquinha: pôs-se o alcaide a desancar vereador de sua oposição: chamou-lho de cérebro de banana. É que o indigitado edil cobrou apurações sobre a participação do Executivo no tal processo eleitoral. Fato é que ao menos um secretário acabou também afastado de suas funções. Mas nada disso justifica tais destemperos.
Em tua pública missiva, fizeste-me curial e curiosa sugestão. Imaginas, ó Durão, se a aceito e adopto por sobrenome El-Cioaçu? Marota e dúbia grafia, pois em tempos de internet, desejasse eu criar um emeio com tais dizeres, ficaria assim: el-cioacu@. Citaste Curralinhos, que fica no Pará. Então conheces, certamente, Minas Gerais, Estado dos mais famosos do Brasil pela mineirice dos mineiros. Recorro então a meu amigo mineiro Bozzano e sua frase insuperável, no imperativo afirmativo: inclua-me fora dessa, pois.
Mas devo dizer palavra em defesa de Elciobebe, modelo criado, sim, por pândego famoso nestas terras, mas de maneira alguma me "soa a pândegos de casta inferior", pois seu autor não é ninguém menos que o Julinhobebe, que é muito gira. Pândego é sim, quando calha de o ser, mas jamais de casta inferior. É certo que Julinho vê o mundo com olhar superior, não só devido à sua elevada estatura, que assusta seus detratores, talvez devido a infantis temores com grandes bonecos, como os da pernambucana Olinda, mas também por sua pureza d’alma de artista, que o é. Mas sério e cidadão consciente também o é, quando necessário, e é sempre o caso quando se trata de defender a produção cultural nestas terras, de defender árvores e sacis e o exuberante meio-ambiente que ainda temos aqui, de denunciar as patranhas infelizmente corriqueiras no Concelho de Yperoig.
Não hei de acatar, pois, tua sugestão de rebatizar-me, e nisso não quero recuar nem me sentir acuado.
Por final, peço-te, perdoa-me pelos deslizes na Língua Portuguesa, especialmente nestes tempos bicudos de Acordo Ortográfico, um fado a acalentar, um fardo a suportar.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá,
em 09/08/2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Promessa de Serra, Ministério dos Deficientes


Serra, creio, teve um surto de paroxismo demagógico.
Quando prefeito de São Paulo - lembram-se? - mandou colocar uns pontiagudos obstáculos para que moradores de rua deixassem de enfeiar vias que tinham viadutos, sob os quais se abrigavam aquelas pessoas. Agora, plena campanha eleitoral presidencial, quer criar novo ministério. Falou o eugenista, com muita propriedade, numa APAE. Passou a mensagem: aberração deve ser tratada como aberração, segregada, cuidada à parte. Uma não-cidadania, um cuidado a ser tido como especial, que permita diferenciar os normais dos anormais. Um Ministério próprio, para discriminar ainda mais. Integrar? Ver como igual, como humano, aquele que tem presente em si a humanidade, mas que ostenta diferenças visíveis ou não? Nem pensar. Vamos criar um mundo à parte para os deficientes, mantendo-os segregados, à guisa de protegidos.
Não, e não. O Ministério dos deficientes, negros, índios, homens e mulheres, homossexuais, transexuais, pardos, travestis, é o Ministério da Educação, e esse já existe. Suas ramificações estaduais, as Secretarias da Educação, estão de dar dó, mas é nelas, no ensino fundamental, que começa a construção da cidadania. Duas décadas do partido de Serra no Estado de São Paulo foram pífios, quando se trata de educação. E agora, quer fazer ministério novo, para ensinar cidadania! É muita cara de pau, demagogia em excesso.
Lugar de criança é na escola, escola pública, com os ajustes e cuidados que forem necessários. Lugar de qualquer criança, deficiente ou não, que será depois adulta, deficiente ou não. Não há que esconder a deficiência, ou a diferença. Há que respeitá-las, há que aprender, no convívio, que pessoas humanas são humanas, acima de qualquer outra caracterização, e como tais, devem ser respeitadas, cuidadas, integradas à sociedade, e não, não e não, discriminadas e segregadas.
Bem, foi um desabafo, com a colaboração da Marlene.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá
em 1/8/2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Respostas sobre o afastamento dos três vereadores



Ora, pois. Faz Durão 23 perguntas para insurgir-se contra o afastamento, por medida liminar, de três vereadores do parlamento do Concelho de Ubatuba. É José, mas não é Zé, muito menos Mané, o Pinto Durão. Está a merecer, portanto, as respostas que outro cidadão é  levado a apresentar.
Como mero exercício de superficial retórica, proponho-me a responder às perguntas de Durão.
Não são excludentes prudência e dever de ofício, atributos presentes na decisão liminar do magistrado. O pressuposto é o de que formou livremente seu convencimento e, por dever de ofício, tomou uma decisão. Decidiu, prudentemente, em vista do bem maior que é o bem público, afastar os vereadores com a finalidade de evitar prejuízos e interferências na instrução processual. Com isto respondidas estão as perguntas 11 e 12, pois se trata de instrução processual e não mera investigação, "já encerrada". Ora, pois, não se confunda alhos com bugalhos. Excesso de zelo? Está, é da peripatética, bem no meio a virtude. Mas tímida não precisa, nem deve ser, a virtude, para não pecar por menos, por desleixo ou desídia. O zelo está em zelar, demonstrar cuidado, esmero, atenção, ser cuidadoso, diligente pelo bem público. O excesso seria invalidar todo o processo eleitoral, afastando todos os conselheiros, ou afastar com a finalidade de antecipar pena, o que não ocorreu. Com isto, respondida está a primeira pergunta, avançando já sobre a segunda. Faz todo o sentido a medida cautelar, que não pede mas sim determina o afastamento do exercício do mandato popular dos três vereadores: o zelo pelo bem público e pela moralidade.
Nenhum mal há em expressar preferência por tal ou qual candidato, no âmbito do exercício da cidadania, mas prover meio de transporte, aliciar, usar o peso do mandato popular para intimidação e constrangimento, nisso há mal, sim. O transporte de eleitores, no passado, foi uma praga que, felizmente, arrefeceu de ânimo. Reintroduzir essa prática aqui em Ubatuba nisso há mal, sim.
Não sei ao certo a magnitude da interferência no resultado da eleição, mas foi suficiente para comprometer o processo eleitoral. Raciocinando pelo inverso, ainda que a magnitude tenha sido pequenininha, ainda assim a prática contrária à moralidade ocorreu.
Durão novamente confunde alhos com bugalhos, em sua quinta pergunta: o que entregamos ao vereador, junto com nosso voto, para nos representar no legislativo municipal, é um mandato específico, para legislar e fiscalizar. Onde? No legislativo municipal. Não em qualquer lugar e a qualquer tempo no mundo. Se o vereador quer, como cidadão comum, exercer seu direito de preferência, votando neste ou naquele conselheiro, é de seu direito. Querer me representar nessa empreitada é inadmissível: para o conselho, voto eu (caso queira), diretamente. Não preciso da tutela do edil para isso. Os candidatos, é claro, não são iguais, mas cabe a mim decidir qual melhor me representará - onde, onde? - no conselho.
Mesmo quem não é ordenador de despesas pode causar danos ao erário: basta utilizar mal os recursos administrativos e políticos que lhes são colocados à disposição. Mas não parece ter sido esse o fundamento do afastamento dos vereadores. Portanto, não cabem ilações quanto a essa questão.
Fatos exógenos, Durão? Pois, pois. A atuação do vereador, seria maravilhoso, deveria dar-se no parlamento e em função do parlamento municipal. Mas o que se vê é o uso do mandato para coisas outras que não legislar e fiscalizar. E o uso do mandato remete para os recônditos endógenos.
Cada macaco no seu galho, cada eleição com seu regulamento, alhos num lugar, bugalhos noutro. A legislação para as eleições de 3 de outubro tem uma parte geral e uma parte específica: trata-se de lei e prevê disciplina própria para as infrações. E multa é uma possibilidade, utilizada com certa largueza pela Justiça Eleitoral, contra o presidente Lula, contra candidatos à Presidência e, mesmo, quanto a candidatos a deputado. O regulamento da eleição para o conselho municipal é outro e não prevê multa.
Quanto ao eventual afastamento do prefeito aqui da cidade, só seria cabível se ele tivesse agido da mesma forma que os vereadores, e não há indícios de que isto tenha ocorrido. Pura apelação retórica de Durão. Que também se insurge contra o acatamento de denúncia anônima. A denúncia precisa ser fundamentada, apresentar os indícios, não é um mero exercício de "achar" isto ou aquilo. Parece que fundamentada sim a denúncia, ainda que anônima, o que afasta o excesso de subjetivismo em sua apreciação.
Veleidade e estardalhaço? Bem, a pergunta de Durão tem um tom opinativo. Pessoalmente, não creio que a exposição dos fatos a estarrecidos eleitores tenha origem em veleidades. Mas concordo que há um certo estardalhaço, o mesmo que veremos quando algum a quo mudar o status quo do afastamento, pois é da tradição uma certa leniência com os acusados quando se trata de examinar afastamento de detentores de mandatos populares.
De todo o modo, sorte dos edis afastados que Durão lhes esteja a favor. Espero que o ilustre trasmontano não se abespinhe com minhas observações e passe a me atacar. Não gostaria de ter Pinto Durão atrás de mim.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá
em 27/07/2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vereadores afastados. Cabeça de juiz.


A decisão judicial, como diz o antigo e sempre verdadeiro provérbio popular, decorre da cabeça do juiz, que é como bunda de nenê: ninguém sabe o que dali vai sair. E é bom que seja assim, por conta de um dos pilares da aplicação da Justiça, que é o livre convencimento do magistrado. Livre, porque não adstrito ao que diz o advogado do autor, nem ao que diz o advogado da outra parte, nem ao que diz o Ministério Público. Mas livre, desde que fundamentado. Não pode o juiz dizer "faça-se assim porque quero, bato pezinho, que faça-se assim". Precisa dizer "faça-se assim porque diz o autor isto, alega isto, prova isto, e diz a outra parte que é aquilo, alega aquilo, prova aquilo; diz o Ministério Público que a lei diz outro tanto e que, no caso concreto, resulta naqueoutro. Portanto, isto, aquilo e aquilo outro configuram um fato jurídico, a exata situação que, silogisticamente, resulta neste fato jurídico, como diz aquele ícone judiciário com respaldo do doutrinarista aqueloutro ainda, o que me faz acolher, ou rejeitar, integralmente ou parcialmente, a pretensão desta e ou daquela parte." Precisa fundamentar, dar fundamentos, dar alicerce, fincar pilotis no manguezal para dar sustentação à sua sentença, que passa então a ser, no jargão judicialesco, "r." de respeitável, ou "v." de veneranda. Bem, quanto ao jargão, menos, menos... Ainda que a sentença seja uma das possibilidades do nenê, uma merda completa, ainda assim será "r." ou "v.".
Diz um juiz que isto é certo, diz o outro que é errado, julga o primeiro tribunal a apreciar a causa que está certo o juiz, diz o outro tribunal que está errado o juiz, diz ainda outro tribunal superior que errado está o tribunal inferior, e por aí vai, até chegar ao ente Supremo, que erra ou acerta por último, como bem disse o tristemente inesquecível Gilmar Dantas. Entram em cena outros conhecimentos, outras matemáticas, que falam em moda estatística, em recorte, em densidade: ao final, ainda que entre cada individual caso continue existindo a contradição, a densidade de opções por esta ou por aquela linha definirá, coletivamente, e ao longo da linha do tempo, o que é justo e o que não é, consolidado num fenômeno do mundo jurídico chamado de "jurisprudência".
Por que a Justiça não é ciência exata? Porque é humana. Navegar é preciso, viver não é preciso. Humanos vivem, navegam imprecisamente na vida, a menos que o problema seja estritamente matemático, ou geográfico. Nos conflitos humanos submetidos ao Judiciário, só as contas financeiras podem ser (mais ou menos) exatas. Os direitos, os fundamentos, jamais os serão.
Então, menos, menos, ao louvar ou atacar a decisão do juiz. Podemos, devemos, respeitar a decisão do magistrado, partindo sempre do pressuposto de sua boa fé, de seu livre convencimento. Vale para o magistrado da primeira instância daqui, para o de segunda instância, para o do tribunal superior, vale até mesmo para o ministro do Supremo. Até prova em contrário quanto ao pressuposto. E então, percebemos (digo no plural, porque acho que é assim que o comum do povo percebe, mas cometo a ousadia de propor um exercício de pensar, que é tomar o particular pelo geral, um método científico calcado na indução e seus perigos) que o juiz local vive um mundo paroquialista, que o juiz intermediário vive um mundo tecnicista, que o juiz superior vive um mundo político, que o juiz supremo vive um mundo de fantasias na sua ilha da fantasia, sede dos Poderes da República, onde existe o mundo tecnicista a serviço do mundo político. Trata-se, claro, de perigosa e brutal simplificação.
Assim, temos, quanto a três vereadores da Câmara Municipal de Ubatuba, a decisão liminar, proferida antes do julgamento efetivo e principal, do magistrado local afastando-os "imediatamente" do cargo. Teremos, é possível, a decisão de alguma câmara do Tribunal de Justiça do Estado cassando tal liminar. A lenta, lerda, lerdésima engrenagem judicial seguirá seu tortuoso caminho pontilhado de recursos protelatórios até tomar uma decisão final que, com boa probabilidade, será então inócua - caso não ocorra antes algum tipo de prescrição.
Proponho aqui outra consideração, desta vez como eleitor. Mas também como juiz de fato, dos fatos dos quais tomei confiável conhecimento e, assim, posso proferir minha própria decisão, válida exclusivamente para mim, razoavelmente livre (porque não tenho acesso pleno a todos os fatos, em vista do filtro da mídia local e da impossibilidade de conhecer todo o universo dos fatos, dos quais ouvi, e muito, falar aqui no meu bairro, no pé do morro do Funhanhado). Collor passou por julgamentos político e judicial. No político, sua pena foi o impeachment e o impedimento, por muitos anos, de participar da vida pública como candidato a qualquer cargo eletivo da República. No judicial, não foi condenado, por falta de provas. Meu julgamento político particular o condenou, definitivamente, irrevogavelmente.
A situação é análoga. Não sei em quem votarei para vereador. Mas já sei desde agora, firmei meu veredito como juiz dos meus atos, em quem não vou votar, independentemente do que diga o Poder Judiciário. É meu direito inalienável e, diferentemente do juiz togado, não preciso fundamentar minha decisão, ainda que, para consumo interno de minha consciência, alinhe os fundamentos e finque meus pilotis no manguezal que é a política, geralmente nanica, aqui de Ubatuba.
Há também, é lamentável, um quarto vereador envolvido, com a conivência de todos os demais: o que propôs, e viu aprovada, sua moção de congratulações aos eleitos para o Conselho Municipal em questão. Uma moção que apresenta congratulações pelo simples fato de terem sido eleitos, não por qualquer trabalho efetivamente realizado. Uma moção de congratulações, portanto, inclusive aos dois membros ora afastados, por conta dos vícios do processo eleitoral. Tal vereador, é certo, não terá meu voto, se candidato. No mínimo, para que aprenda a melhor direcionar seu chorrilho de moções de congratulações a granel. Fico cá pensando se se trata do mesmo vereador que o Julinho Mendes chama de Zé Moção.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá
em 16/07/2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Heróis, anti-heróis, família


Para ter algo mais o que fazer do que simplesmente observar as belas tupinambás com suas vergonhas saradinhas (a insinuação é de Machado de Assis), o ilustre cativo hóspede de Cunhambebe nas terras de Coaquira, aqui em Yperoig, escreveu vasto poema dedicado à Virgem Maria: o padre jesuíta José de Anchieta, que agora é Herói da Pátria. A lei que concede o título ao articulador da Paz de Yperoig foi sancionada dia 5 de julho de 2010 pelo presidente em exercício, José Alencar, pouco antes de ver-se internado com problemas na tubulação cardíaca. É outro herói nacional, esse nosso vice-presidente, por sua prolongada luta pela vida, que ele encara de peito aberto. Bem, nem tanto, que desta vez foi só um cateterismo para instalar um stent, não foi nem cirurgia de abrir caixa torácica. De qualquer forma, é um ícone quando se trata de encarar a vida e a saúde, e a morte, inevitável, seja pelo câncer de onze anos que ele, teimosamente, ao custo de umas 12 cirurgias e mais tratamentos, mantém sob o controle possível; seja pelas coisas da idade, entupimento de artérias; ou, quem sabe, até a queda no mar de um helicóptero. Ninguém sabe quando e como vai morrer, nem mesmo o Alencar, mas ele é religioso e disse, ainda recentemente, que Deus ainda não o quis levar. Herói que é, declarou e demonstra, está pronto para o fim da existência, que é a morte.

Cunhambebes foram dois, parece certo, o pai e o filho. Na confusão da falta de informação histórica, ora atribui-se ao pai, ora atribui-se ao filho, a famosa Maldição de Cunhambebe, algo assim: "Paz de Yperoig? Qualé! Embromation, foi puro rebolation português para melhor se armar e nos destruir. Paz a p.q.p. e, portanto, phoda-se (grafia, sabe-se lá, antiga?) o que vier a ser Ubatuba, onde nem mangueiras frutificarão". Se Anchieta, o quase santo que não o foi por ajudar pessoalmente na morte enforcada de um francês protestante luterano perseguido pela Inquisição católica em terras d’além mar; o Anchieta do poema bilíngue (trema, pelo Acordo Ortográfico, já era) em Latim e em Português, que usava seu cajado de taquara para escrever na praia de Yperoig (grafia arcaica, hoje escreve-se Iperoig); se Anchieta pode ser guindado à honra de pertencer ao Panteão dos Heróis da Pátria brasileira, Cunhambebe também pode, e deve, ser candidato a tal honra, candidatura a ser patrocinada por nós, caiçaras ubatubenses e ubatubanos que somos os destinatários das maldições (e bendições, é bom que se diga) de Cunhambebe, seja ele o pai ou o filho.
Um parêntese. Cajado de taquara é mera especulação. A "estauta", em bom sutaque minêro, a estátua do Anchieta lá na praia de Yperoig não tem mais o bastão, a vara, o cajado, com a qual teria escrito os versos à Virgem. Poderia ser de taquara, mas também um galho de ? ? , ou de, quem sabe, ? ? (de qual madeira é mesmo feito o ratambufe, criação do genial caiçara Domingos Anagro?).

Pois bem, como diz o Maierovitch, pano rápido. Falemos agora dos heróis anti-heróis, os que eram para ser e, como Anchieta, não viraram santos, nem mesmo serão jamais heróis com direito a lei que lhes garanta o título. Cheguemos ao presente, ao goleiro (ou ex-goleiro, como já o chama a mídia) Bruno, do Flamengo, dona da propalada maior torcida nacional. Pessoa sem noção, "ah, ele é sem-noção", nem imagina o impacto que podem ter suas declarações e ações, principalmente estas, na formação da molecada, das crianças, dos jovens, que buscam se espelhar nos heróis da hora, "ah, ele é da hora!", no linguajar em curso dos "manos" e candidatos a "mano", aquelas pessoas do bonezinho com a aba virada para trás, que fazem sucesso entre a molecada. Há algo de podre no reino da Dinamarca, diria Shakespeare, pela boca de Hamlet. Há algo de podre no Brasil, que endeusa Brunos sob o olhar acrítico da mídia que é só ufanismo - vide Yperoig de hoje, a Ubatuba dos releases oficiais. E, quando percebe o tamanho da monstruosidade cometida pelo até então endeusado, sai-se com o "caso Bruno" quando, na verdade, trata-se do caso da vítima, a moça (nem um pouco santa) do "caso Elisa".

Chegamos então ao fator gerador de toda essa m&$d@, a família. A destroçada família de origem do Bruno, a destroçada família de Elisa, um imblóglio de acusações de assassinato, abandono, estupro, doença mental, favela, classe média, o escambau. E chegamos à precisa intervenção da dra. Marlene, ao falar sobre a A supremacia do macho, ao apontar que na sua família, na minha família, na família da classe média de gente igualzinha a nós, pode estar a semente dessas barbaridades. Ela convida os jornalistas à reflexão, mas, na verdade, convida todos nós, pais, maridos, companheiros, cuidadores, educadores, a uma grande reflexão. Que m&$d@ é essa de não respeitarmos as mulheres, esposas, filhas e mães, de nossa vida, de nossa família? No que isso, coletivamente, vai dar? Vale para mim, marido (e nada menos que marido da dra. Marlene), mas para todos nós, que devemos ter responsabilidade social.

Texto publicado originalmente em O Guaruçá
em 13/07/2010. Atualizado em 23/07/2010.

domingo, 4 de julho de 2010

A promessa de Maradona


Não tenho intimidade com futebol, não gosto de futebol, essa coisa de Copa do Mundo não me empolga. No entanto, é só do que se fala, em qualquer lanchonete de beira de estrada sempre tem um jogo passando na televisão.
Foi numa dessas lanchonetes que vi os últimos três minutos do jogo que devolveu a seleção argentina ao solo argentino. Então, lembrei-me da promessa de Maradona, de que desfilaria pelado numa praça central de Buenos Aires, caso a Argentina ganhasse a Copa.
Não sei alemão, mas sempre presto atenção no hino nacional alemão, porque me traz lembranças de infância, quando essa melodia, com outra letra, era um hino cantado nas igrejas de recorte luterano (metodistas, presbiterianas e outras). Também não sou compositor nem piadista. Mas o que vai a seguir saiu de improviso, ao ver a cara do Maradona depois do jogo contra a Alemanha.
Trata-se daquela espécie de refrão no final do hino, aos 40s na versão (em ogg) que tem na Wikipedia.

Deutschland, Deutschland
über alles, über alles in der Welt.

Pois não é que dá prá cantar assim?
 

Dom Die-e-go Maa-ra-do-o-na
Não va-a-ai mais desfilar peladão...

Tanta coisa importante acontecendo em Ubatuba e me saio com essa bobagem...

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruça  
em 04/07/2010