Desconfio que seja uma loira de cabelos encaracolados, da magnífica série que só um artista de múltiplas expressões pode produzir.
* texto publicado originalmente na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 19/11/2014
Um ponto de vista do cidadão comum.
Este é um espaço para opiniões.
Esteja à vontade
para comentar. Ou para responder, em nova postagem.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Chegou a Ubatuba mais um chato, o Emboaba
Responde pelo nome de Antero Emboaba o mais novo chato de Ubatuba. Chegou há pouco de fora e já está causando. Aqui, nas páginas da nossa revista eletrônica, O Guaruçá, como explicitou em sua primeira postagem. “Um amigo deu o endereço de O Guaruçá como espaço que poderia acolher o meu recado”, escreveu.
Emboaba, todos sabem, é palavra de origem tupi, a língua geral. M´boaba, ou algo parecido, era como os indígenas designavam as aves que tinham penas ou penugens nas canelas e, mesmo, nos pés. Tivemos aqui, no pé do Funhanhado, onde ultimamente têm voado penas, algumas galinhas (que botavam ovos azuis) e um galo com esse perfil. Ora, os portugueses usavam botas de couro cru, com pelos, que os indígenas logo associaram às pernas emplumadas das aves.
De alguma forma, os bandeirantes paulistas se apropriaram do vocábulo e passaram a designar de emboabas (cabe a forma plural, pois não se trata de nenhum povo indígena) os forasteiros portugueses e nordestinos que com eles passaram a disputar as regiões auríferas de Minas Gerais. Virou guerra, a Guerra dos Emboabas, na qual os paulistas levaram uma coça, em 1708, e contabilizaram mais de 300 assassinados no Capão da Traição (entre as hoje cidades de São João Del-Rei, Tiradentes e Coronel Xavier Chaves), perto do rio das Mortes, quando já tinham se rendido. A Coroa Portuguesa tratou de intervir e regulamentou na região a exploração do ouro, de olho no farto imposto que poderia cobrar, o famoso quinto, não importava de quem. Os emboabas ficaram com a província aurífera de Minas Gerais e os bandeirantes foram para Goiás e Mato Grosso, onde também lavraram ouro.
De qualquer forma, os bandeirantes paulistas se apropriaram do vocábulo sem perceber que eles próprios eram emboabas (forasteiros) nas terras indígenas.
Aqui, em Ubatuba, temos caiçaras e emboabas e caraíbas, sejam os que nasceram aqui, os turistas, os migrantes, os aposentados, os aventureiros, os paraquedistas, os moradores de rua. Afinal, dizem “os donos do pudê”, Ubatuba é acolhedora por natureza. Alguns que aqui chegam (ou já moram, ou nasceram aqui) querem levar vantagem, no tradicional jeitinho brasileiro. Outros querem contribuir, no mínimo com sua criteriosa opinião, para melhorar a geleia geral em que Ubatuba se transformou. Os primeiros fazem questão de confundir o público com o privado, tentando (e muitas vezes conseguindo) se apropriar privadamente do que é público. Os outros, em geral, são chamados de chatos.
Seja, portanto, Emboaba Antero, bem-vindo à revista O Guaruçá, onde têm voz e expressão os chatos, mas também, de vez em quando, quando querem, ainda que meio envergonhados, os primeiros acima referidos. Trata-se de um espaço aberto, no qual o editor é de direita mas acolhe opiniões de centro e de esquerda. Um espaço democrático, enfim.
Uma observação
Emboaba, no sentido (de forasteiro) que deram à palavra os bandeirantes, não é a mesma coisa que caraíba, que era como os povos falantes da língua geral tupi-guarani se referiam não apenas aos europeus em geral, mas também aos indígenas falantes da língua gê, em remota referência ao grupo indígena caraíba, ou caribes, cuja ocupação territorial tinha início nas ilhas do Mar do Caribe e se estendeu para o sul do continente. Emboaba, assim, seria espécie de que caraíba seria gênero.
* texto publicado originalmente na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 10/11/2014.
Ubatuba votou novamente no PSDB
Os eleitores de Ubatuba votaram maciçamente no PSDB, na eleição de domingo. Dos 62.527 inscritos (cinco a mais do que no primeiro turno), compareceram 46.589 (74,51%), o que significa elevado percentual de abstenção, 25,49, maior do que o nacional, que foi de 21,10.
Para presidente, Aécio Neves, do PSDB, teve aqui 67,79% dos votos válidos, contra 32,21% dados a Dilma, do PT. Aécio ficou com pouco mais de dois de cada três votos dos candidatos que não chegaram ao segundo turno, o que permite dizer que o tucano teve dois terços dos votos dos eleitores de Marina Silva. Em percentuais, segundo turno contra primeiro, Aécio 67,79 - 49,57 = 18,22, e Dilma 32,21 - 24,28 = 7,93.
Irmã votou novamente em Dilma
A cidade irmã de Ubatuba em Minas Gerais, Ladainha, votou novamente em Dilma, como tinha feito em 2010.
Um em cada três (34,50%) dos 12.207 eleitores inscritos em Ladainha (MG) não compareceu às urnas, abstenção muito maior que a média nacional. É possível que muitos deles tenham preenchido aqui o formulário de justificativa eleitoral.
Dilma teve lá 64,81% dos votos, e Aécio, 35,19%.
* texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 27/10/2014.
Ubatuba votou no PSDB
Rua Prof. Thomas Galhardo
Os eleitores de Ubatuba votaram maciçamente no PSDB, nas cinco eleições de domingo. Dos 62.522 inscritos, compareceram 47.147 (75,41%), o que significa elevado percentual de abstenção, 25,59, bem maior do que o nacional, que foi de 19,39.
Para presidente, Aécio Neves, do PSDB, teve aqui 49,57% dos votos válidos, contra 24,28% dados a Dilma, do PT, e 22,44% a Marina Silva. Todos os demais candidatos, somados, tiveram votação muito menor do que os votos em branco (3,81%) e os nulos (3,99%). Vale destacar a quarta colocada, Luciana Genro, do PSOL, que teve 524 votos, 1,21% do total.
Para governador, os votos de Ubatuba foram para Alckmin, do PSDB (70,15%), Padilha, do PT (16,67 %) e Skaf, do PMDB (11,34%).
Para senador, 69,63% dos eleitores de Ubatuba votaram em José Serra, do PSDB. Suplicy, do PT, teve 23,70%, e Kassab, do PSD, 3,68%.
Deputado federal
Para deputado federal, o mais votado foi do PSDB, Bruno Covas, que teve 3.025 votos, 7,73%. Colado, com 7,49%, Celso Russomano, do obscuro PRB. Samuel Moreira (forte no Litoral Sul), do PSDB, teve 6,47% dos votos daqui, algo surpreendente. Tiririca (PR) levou 5,05% dos votos de Ubatuba e Pedro Tuzino Leite, hoje no PTB (ex-PT, ex-PSDB), 4,78%. Ricardo Trípoli (PSDB) teve 4,19% dos votos, ainda que não se saiba qual, exatamente, o motivo. E o infeliciano ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o pastor Marco Feliciano, do PSC, levou 3,62% dos votos de Ubatuba (1.417 votos).
Amélia Naomi teve 932 votos (2,38%) aqui, de um total de 77.831 votos em todo o Estado, ocupando, no momento (há votos sub-judice de candidatos impugnados que poderão alterar os quocientes eleitoral e partidário), a segunda suplência de seu partido, o PT. Amélia assinou com o candidato (candidatura impugnada) a deputado estadual Marco Aurélio o panfleto de propaganda eleitoral do PT “Compromisso com Ubatuba”.
Dos 504 candidatos a deputado federal que tiveram votos aqui, 57 tiveram mais de 100, e 447 entre um e dez votos.
Deputado estadual
Para deputado estadual, os mais votados também foram do PSDB, Antonio Carlos Júnior (7.013 votos, 18,6%) e Fernando Capez (3.068, 8,14%), seguidos por Gil Lancaster (1.628, 4,32%), do DEM (coligado com o PSDB) e Trípoli, do PV (1.346, 3,57%). Ana do Carmo foi a mais votada do PT, com 1.306 votos (3,46%).
Dos 594 candidatos que receberam ao menos um voto em Ubatuba, 42 tiveram mais de cem. Mas a soma de votos em branco e nulos foi de 10,03 + 9,99 = 20,02%, mais do que o candidato mais votado, que teve 18,60% dos votos válidos. Com mais de 100 votos houve 42 candidatos.
O cidadão ubatubense Marco Aurélio, do PT, cuja candidatura a deputado estadual foi impugnada e se encontra na lista do TSE “Indeferido/cassado com recurso” teve 44.617 em todo o Estado, mas ainda não é possível saber quantos, em Ubatuba.
Ubatuba tucana
Tucanos, as aves, são raros por aqui. Vê-se um ou outro nos morros, sobre as matas, mas raramente passeiam pelas áreas urbanas. Mas, pelo que restou confirmado nas eleições, há muitos tucanos por aqui, por convicção, conveniência ou falta de opção. Ubatuba sempre teve histórico de rejeição ao PT. A eleição de Maurício Moromizato a prefeito, em 2012, foi um espasmo, não por opção, mas pela falta dela. Se, em 2016, Moromizato conseguir se reeleger, o dilema estará novamente colocado, porque nenhuma nova liderança emergiu com força suficiente para ser alternativa viável, e as antigas dificilmente terão novamente espaço na política local.
Dados do TSE
Os dados desta matéria foram obtidos pelo programa “Divulga”, gratuito, que pode ser obtido no site do TSE, ou online.
* texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 06/10/2014.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Cidadão de Ubatuba na Lei da Ficha Limpa
Um dos declarados 15 mil panfletos com propaganda eleitoral de cinco candidatos do PT, destinados especificamente ao nosso município (“Compromisso com Ubatuba”), que inclui o candidato a deputado estadual Marco Aurélio de Souza, veio parar aqui em casa, no pé do Funhanhado. O panfleto, em papel não reciclado, a cinco cores, afirma que o parlamentar, que disputa reeleição, é Cidadão Ubatubense. É verdade. Foi agraciado com o título pela unanimidade dos vereadores presentes à sessão da Câmara Municipal realizada em 17 de setembro de 2013, projeto de decreto legislativo 9/13 de autoria do vereador Manuel Marques, do PT, mesmo partido do parlamentar.
O cidadão ubatubense tem sua candidatura questionada pelo Ministério Público Eleitoral com base na Lei de Inelegibilidades, de 1990, com as modificações introduzidas pela lei da Ficha Limpa (junho de 2010). Notícia antiga, de um mês atrás. Diz Julio Codazzi, no portal do jornal O Vale, de São José dos Campos, que “Marco Aurélio foi enquadrado pela PRE (Procuradoria Regional Eleitoral) na Lei da Ficha Limpa porque teve contas rejeitadas pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado) em 2001 e 2006, quando era prefeito de Jacareí”. E que, em “nota enviada pela assessoria de imprensa, o deputado informou que irá recorrer para (sic) o TSE e alegou que o TRE está 'excessivamente rigoroso'”. Continua: “Segundo o petista, a condenação tem relação com o Consórcio Três Rios, entidade que tinha ligação com diversas cidades – entre elas Jacareí – e que era presidida nesses anos pelo então prefeito. O deputado disse que o erro foi cometido pelo então gerente administrativo da entidade e que, em 2010, a Justiça Eleitoral também analisou essa questão e deferiu sua candidatura.” Conclui: “O petista alegou ainda que 'confia na reversão da decisão, pois sempre pautou suas ações pelo rigor legal, ético e moral'”.
Agora é notícia mais nova. O Tribunal Superior Eleitoral acaba de proferir decisão contrária ao candidato, a despeito de estarem a seu serviço, no Recurso Ordinário Nº 72569 que tramita no TSE, oito advogados, alguns de renome, a começar por Hélio Freitas de Carvalho da Silveira, que já atuou em assessoria jurídica a Marta Suplicy, Aloizio Mercadante e José Genoino, como noticia a internet. Outro é o advogado Marcelo Santiago Andrade, autor do livro jurídico “Ação de impugnação de mandato eletivo”. Outro ainda é o advogado especialista em Direito Eleitoral Fernando Gaspar Neisser. Ao menos do ponto de vista da qualidade dos patronos da causa, está amplamente assegurado o amplo direito de defesa preconizado pelo Estado Democrático de Direito. Contudo, a ministra do TSE Maria Thereza de Assis Moura negou seguimento ao recurso. A íntegra da decisão pode ser encontrada no site do TSE, Acompanhamento Processual da Justiça Eleitoral – TSE e Push. É necessário ter (ou fazer) cadastro, gratuito.
Claro, e por causa desse tão amplo direito de defesa, cabem recursos, muitos, todos e mais alguns, antes do manto dourado da coisa julgada, o trânsito em julgado, coisa para as calendas gregas. Até que sejam julgados todos esses recursos, seguirá candidato, caso eleito será diplomado e, diplomado, tomará posse.
A lei? Ora, a lei. Nas eleições de 2010 não vigorava a Lei da Ficha Limpa. Então, se, conforme a nota do parlamentar, “a Justiça Eleitoral também analisou essa questão e deferiu sua candidatura”, o contexto agora é outro. Não é mais necessário o manto dourado da coisa julgada, do trânsito em julgado. Basta decisão proferida por um colegiado (judicial ou administrativo). Se judicial, que contenha reconhecimento, cumulativo, de requisitos, entre os quais de dano ao erário, de enriquecimento ilícito, de dolo na conduta. Mas persiste, é claro, no mais retrógrado dos Poderes da República, o mecanismo protelatório dos recursos sucessivos.
Ética e Moral
A ética é uma reflexão sobre a moral, uma sistematização científica do conhecimento, que admite teorias. A moral está mais na base, na relação direta do indivíduo com as práticas do dia-a-dia.
Diz o parlamentar, em nota, que “sempre pautou suas ações pelo rigor legal, ético e moral”. Ele é membro efetivo do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo.
Rigor legal não necessariamente, tanto que contas de sua responsabilidade foram rejeitadas por questões legais. Além do mais, nem tudo o que é lícito é honesto, uma das bases do princípio da moralidade administrativa.
Ex-prefeito de Jacareí e aliado do atual prefeito de Ubatuba, Maurício Moromizato, Marco Aurélio manteve o odontólogo como seu “assessor parlamentar” de desde o primeiro semestre de 2011 a fevereiro 2012. O próprio site do deputado registra a fala de Moromizato: “Eu me senti muito feliz e honrado em ter ajudado o mandato do deputado Marco Aurélio, que exerce a política com ética e muito empenho e com quem eu aprendi bastante”. Não achei no portal da “transparência” da Alesp os salários pagos aos assessores parlamentares, mas assumo, de memória das notícias da época, que era algo ao redor de uns quatro mil reais por mês. Essa passagem rendeu a Moromizato incômodos apelidos, pela associação à figura do funcionário fantasma, que recebe salário mas nunca é visto no local de trabalho. Quando se trata de funcionário público, a associação é com o que esta revista, jocosamente, chama de “tetas do pudê”.
Pessoalmente, acho, penso, tenho o direito de pensar, que a questão é mais prosaica. Profissional de sucesso, consultório odontológico cheio, não precisaria de $ extra por ser assessor de p.n. de um deputado. Mas havia um diretório de partido a sustentar, aluguel, contas de telefone, água, luz... Para mim, penso, tenho esse direito, não é moralmente defensável receber proventos sem comprovar (nem exatamente o trabalho, mas o tempo dedicado a ele) por jornada de trabalho que aqueles sujeitos ao ponto, mecânico ou eletrônico, precisam cumprir religiosamente, sob pena de descontos e, até, da configuração de falta grave. Mas a sede da moral é o indivíduo, e o que é imoral para mim pode não ser para todos os demais membros da humanidade. Ou vice-versa. No entanto, ilegal realmente não é.
O que nos leva à questão do rigor. O rigor ético é de caráter científico, com suas várias instâncias e métodos de comprovação e demonstração. O rigor moral é de outra ordem, sabe que nem tudo o que é legal é moralmente defensável. E há o rigor da lei e dos tribunais. Quando a nota do parlamentar diz que o TRE está “excessivamente rigoroso”, quer dizer o quê? Dirá agora que o TSE também usa o rigor em excesso? Rigor admite o tempero da adjetivação “mais” ou “menos”, lembrando que a nota do parlamentar fala que ele se pauta apenas pelo rigor?
O outro lado
Tentei falar com o deputado Marco Aurélio, mas o máximo a que cheguei foi falar com sua assessora de imprensa, que alegou dificuldades de agenda do candidato e limitou-se a enviar uma nota. Tentei também falar com o prefeito Moromizato, há tempos inacessível, sem sucesso.
O que mesmo?
“... com quem eu aprendi bastante”.
“... com quem eu aprendi bastante”.
*Texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 02/10/2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Perequê-Mirim, em Ubatuba, praia boa mesmo
Disse José Ronaldo dos Santos
que a praia do Perequê-Mirim era uma “boa praia até meados da década de
1980”. Comento isso, e advirto minha meia-dúzia de leitores: o texto é
longo, exaustivo.
Maurício Moromizato me ensinou, em um puxão de
orelha público, que, quando há bandeira vermelha da Cetesp, não é a
praia que está poluída, é a água do mar que está imprópria para o banho.
Mas, penso cá comigo, praia não é só a faixa de areia. É a faixa de
areia banhada por água. Se a água está poluída, a praia não está
hígida... De qualquer forma, no linguajar do povo e da mídia,
consagrou-se a expressão “praia poluída”. E a do Perequê-Mirim, nos
últimos anos, é a mais poluída de Ubatuba, mais ainda do que a
famigerada praia sul do Itaguá, que é apenas a mais famosa. Trata-se de
uma praia pequena, de águas mansas, no Saco do Perequê-Mirim, Enseada do
Flamengo. Não é praia para a agitação dos surfistas, calma e bucólica
que é. Se fosse de boa balneabilidade, seria ideal para famílias com
crianças e idosos, como já foi no passado. Até um pequeno quiosque
funcionava.
O que aconteceu com ela? Quais as causas? Foi vítima
da política nanica que persiste em Ubatuba, bem como o descaso daqueles
que elegemos como nossos representantes, estaduais e federais inclusos
mas, principalmente, os locais, prefeitos e vereadores – inclusos os
atuais. É nanica porque se baseia em disputas políticas menores por
poder, por não visar ao bem comum.
Desde logo, é necessário
registrar o falecimento do grandioso Programa Onda Limpa, do Governo de
São Paulo, do PSDB, com recursos estimados em R$ 500 milhões para os
CUIS do Litoral Norte (Caraguá, Ubatuba, Ilhabela e São Sebastião). As
obras seriam executadas com recursos próprios da Sabesp, da Jica Japan
International Cooperation Agency e do e BNDES. Outros R$ 1,4 bilhão
seriam destinados à Baixada Santista, entre Bertioga e Peruíbe, passando
por Santos-São Vicente-Cubatão-Praia Grande e todos os outros
municípios de lá. Os investimentos totais, desde 2007, hoje estariam a
beirar R$ 2,1 bilhões. Mas não foi o suficiente para melhorar a qualidade das praias.
Ninguém sabe, ninguém viu, a Sabesp parou de falar no assunto, mas
várias obras foram executadas na Baixada Santista e algumas poucas nos
CUIS. Até as placas sobre o programa, nas margens da rodovia Rio-Santos,
neste trecho chamada de rodovia Rodovia Doutor Manoel Hipólito do Rego,
apodreceram e desaparecem nos últimos cinco anos.
Se não faleceu,
ao menos teve uma síncope (delíquio, como diria Jânio Quadros) da qual
não se recuperou. Foram instaladas redes coletoras aqui no bairro, que
ligam nada a lugar nenhum. Depois de anos enterradas, sem qualquer uso
nem manutenção, se algum dia vierem a ser usadas precisarão ser
refeitas. Quando? O prefeito Maurício Moromizato disse que a Sabesp
tinha ido a ele, mas que ele ainda não tinha ido à Sabesp. Se foi,
esqueceu-se de contar, de usar sua assessoria formal e informal de
comunicação a serviço do bem comum, do povo – ah, a naniquice
política...
Sem coleta e tratamento decente de esgoto, não há como
ter onda limpa. Não tem como despoluir a praia – opa! despoluir a água
do mar que bate na praia.
Há um outro programa estadual que data
de 2007 e que também patina, por falta de recursos (parte viria do BID) e
falta de vontade política de enfrentar os donos das casas de alto
padrão existentes nas cotas altas dos morros, nas áreas de preservação
ambiental: o Programa Serra do Mar, que pretendia reassentar famílias
moradoras de áreas do parque da Serra do Mar, inclusive nos CUIS.
Deveria ter sido concluído em 2013. Enquanto isso, a ocupação nas cotas
altas dos sertões (são três) do Perequê-Mirim continua e prospera.
José Ronaldo dos Santos
Já citei José Ronaldo dos Santos várias vezes neste espaço democrático que é O Guaruçá. Em 2011, março ainda, falei que há pessoas em Ubatuba
que não conheço pessoalmente, mas gostaria de conhecer. José Ronaldo é
uma delas, e reitero: gostaria de ter esse prazer. Talvez num singelo
café da manhã aqui no nosso Cantinho, com um visual bonito e, quem sabe,
com uma sinfonia estridente. Dalgas Frish, um estudioso sem títulos
acadêmicos, jura que são os machos, mas os caiçaras antigos daqui dizem
que tanto macho como fêmea ensinam o canto tribal aos filhotes. Fato é
que a sinfonia estridente dos sabiás e das sabiás vai desde a madrugada
até bem depois que o sol nasce.
Neste final de madrugada de
terça-feira, Marlene acordou irritada (de mentirinha) por causa do
privilegiado gogó de um (ou uma) sabiá cantando bem pertinho da janela
do quarto. Sabiás e outras umas quarenta espécies de pássaros, muitas
das quais fotografadas aqui pela Marlene,
uns 60 ou 90 ou mais indivíduos, é impossível saber, são um encanto à
parte neste nosso Cantinho. Que está à venda (com a Marlene, que também
tem um apartamento para alugar
nas temporadas). Seguimos curtindo enquanto podemos. Mas a falta de
assistência médica (e somos dois velhos com problemas específicos que o
precaríssimo sistema de saúde de Ubatuba não dá conta de atender) nos
obriga a abandonar Ubatuba, um paraíso ainda a construir.
Reclamões
Os políticos daqui não são chorões. Talvez mamem, e muito, mas não em benefício do povo.
Estamos
aqui, no pé do Funhanhado, na época dos reclamões. E, como quem não
chora não mama, quem pia mais ganha mais comida. Os reclamões são os
filhotes de saíras, tiês, sabiás, sanhaços e de várias outras espécies.
Trata-se da fase em que os pais levam os filhotes até os comedouros –
temos alguns, aqui no nosso Cantinho, abastecidos com muitas bananas,
alguns mamões e poucas laranjas, seguindo a ordem de preferência de
nossos emplumados e barulhentos visitantes. Só que os bandidinhos ainda
querem comida no biquinho, serão vários dias até que percebam que não
precisam dos pais para bicarem eles próprios as frutas disponíveis.
O
Perequê-Mirim – e, de resto, Ubatuba – não é um reclamão. Aceita o
descaso municipal, estadual e federal com mineira resignação. Aceita o
descaso de condomínios que esvaziam suas fossas poluindo a praia – opa! o
mar, não a praia – pela rota pedestre citada pelo José Ronaldo. Esse
povo dos condomínios não é bobinho. Faz a descarga do esgoto em alguns
finais de semana, no final da tarde, na troca de turno da PM Ambiental.
Já reclamei, denunciei, mas... O esgoto, de cheiro pútrido, continua
correndo a céu aberto pela rota terrestre Caminhos de Anchieta, citada
pelo José Ronaldo, até atingir a praia e o mar pelo pequeno córrego na
ponta norte da praia.
Queijo com banana verde
O
Julinho, tenho certeza, gosta dos mineiros, mas não se sente
confortável quando mostram tendência de não respeitar a cultura caiçara.
Registrou em belo texto
a indignação do pai dele com coletores de mariscos que, calçando botas
sete-léguas, usavam enxadas como ferramentas numa das muitas e belas
costeiras do nosso litoral, que citei em outubro de 2010.
Nada contra os mineiros, nada mesmo. Gosto muito deles, antes de virmos para cá cogitávamos em nos mudar para a região da Canastra,
a terra dos sonhos. Mas aqui em Ubatuba já temos o suficiente, não
podemos abrigar mais. É que Ubatuba precisa se desenvolver, mas não pode
crescer. Cada mineira que vem para cá em pouco tempo forma família e
passa a ter um herdeiro. Dois, três, uma grande capacidade de gerar
lindos bebês saudáveis. Mas que isso não vire preconceito nem xenofobia.
Não são só mineiros que aportam aqui, eu mesmo sou um caipira do
interior de São Paulo. E boa parte não apenas do crescimento mas também
do desenvolvimento de Ubatuba é mérito de mineiros trabalhadores e
empreendedores. Quando o Perequê-Mirim era ainda mais carente de quase
tudo, o mineiro Tio Elias abriu um mercadinho e instituiu a caderneta de
fiado, que quando cheguei aqui a mim negou. É que eram tempos incertos,
estava para ser inaugurado um grande supermercado de uma rede com sede
em São José dos Campos. Continuo sem a caderneta, o supermercado se
consolidou e o mercadinho do Tio Elias, hoje gerido por seus filhos,
continua firme e forte, progredindo. Não tem muita variedade, mas tem o
básico (e um pequeno açougue muito melhor e mais limpo do que o do
grande concorrente). A caderneta, na verdade, não me faz falta, porque o
mercadinho aceita cartão de crédito.
O Perequê-Mirim já foi um
bairro de caiçaras, neles incluídos os oriundos de Tarba e que tão bem
absorveram a cultura local que são facilmente confundidos com os
nascidos nestas terras de Coaquira.
Ainda é um bairro
relativamente tranquilo, não se ouve falar de furtos, de homem batendo
em mulher, de estupro, nem mesmo de assédio em via pública. É
constrangedor reconhecer que, talvez, seja porque é um bairro que tem
dono que também não deixa o crack vicejar por aqui.
Cetesb
Sobre balneabilidade das praias.
Peço à minha meia dúzia de leitores (os que tiveram a paciência de
chegar até aqui), leitores, não se assustem. O site demora mesmo para
abrir. Se tiverem paciência, há no site links com as séries históricas,
que comprovam que a praia do Perequê-Mirim é mesmo a mais poluída de
Ubatuba.
* texto publicado originalmente na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 25/08/2014.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Água, segredo de Estado em Ubatuba
A ordem do governador Geraldo Alckmin é de que só ele e o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, engenheiro Mauro Arce, podem falar sobre abastecimento de água.
Ante tão peremptória ordem, é difícil aos agentes públicos da gestão da água potável não sentirem muito receio de falar qualquer coisa sobre os sistemas que operam.
Pode ser que, afinal, o engenheiro José Bosco de Castro, superintendente da Sabesp nos CUIS do Litoral Norte, não tenha agido com descaso ou incompetência quanto a reconhecer e entender dados técnicos. É que um manto de segredo cobre a gestão da água no Estado de São Paulo.
Consegui, enfim, falar com o engenheiro Bosco, que estava de férias (outro segredo, ninguém tinha me informado disso) e que confirmou o teor da resposta. O espaço continua aberto à sua tréplica.
É um trocadilho ruim, mas em Ubatuba, na gestão da água potável, o que não podemos ter é crise de liquidez. Mal comparando, qualquer um que já tenha visto de perto o funcionamento do mercado financeiro ou acompanhado tendências da economia sabe que uma situação deficitária, quando se torna crônica, aponta para a morte econômica de qualquer pessoa, física ou jurídica, e mesmo de estados nacionais. E sabe também que quando a crise é de liquidez (a Argentina e seus calotes estão agora no foco da mídia) o caso é de morte súbita, mesmo que o patrimônio seja grande.
Funciona aproximadamente assim: mesmo que seja um fio de água, mas contínuo, vamos tocando, aqui em Ubatuba. Uma chuvinha por semana, mesmo que de uns poucos milímetros, vai nos garantindo, nosso consumo não é lá muito grande, e porque captamos água em cotas altas dos mananciais da Serra do Mar, com minúsculas barragens só para manter submersos os dutos de captação.
Grandes volumes de chuvas, ao contrário, são prejudiciais, porque sujam as barragenzinhas de captação, com risco de entupimento dos filtros diretos da estação de tratamento. Como a água fornecida precisa estar dentro de parâmetros específicos quanto à turbidez, a solução é fechar a estação de tratamento até que a sujeira (barro) em excesso escoe.
Parece que a Sabesp não quer ser mais flagrada de calças curtas (falei ligeiramente sobre isso, em 2013), pois quer licitar um sistema de floculação que amenizará muito o problema da sujeira na captação, evitando o fechamento total da estação de tratamento quando das grandes chuvas.
De qualquer forma, números, ah, os números, talvez só depois das eleições. Até lá, há que observar o fluxo que sai das torneiras e torcer para que os agentes públicos mantenham um mínimo de ombridade se a coisa ficar realmente feia. Por ora, só registrar que, de uns 80 mil habitantes de população fixa, temos uns 58 mil domicílios, dos quais uns 50 mil atendidos pela estatal da água. E registrar uma verdade: na temporada de verão passada, realmente veio um número enorme de turistas e não faltou água provida pela Sabesp nas torneiras.
Em algum momento, outro problema precisará ser enfrentado, o do uso dos mananciais. Especialmente na Maranduba. E, outro ainda, em todas as vastas áreas ainda carentes de coleta e tratamento de esgoto domiciliar, na Praia Grande, em quase todo o município e, especialmente, aqui, no pé do Funhanhado, no Perequê-Mirim, que tem a praia com os piores índices de balneabilidade de toda Ubatuba.
Autoritarismo de um picolé
O abastecimento de água é segredo de Estado, mas, na verdade, não é só em Ubatuba. É que governador Geraldo Alckmin, geraldamente apupado popularmente como picolé de chuchu (vide), desde que José Simão cunhou o mote, resolveu virar bicho e determinou que, sobre abastecimento de água, só podem falar ele próprio, Alckmin, e o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, engenheiro Mauro Arce (ex-presidente da CESP).
Mais: em plena campanha eleitoral pela reeleição, Alckmin agora resolveu assumir um perfil briguento, no melhor estilo dos regimes autoritários. E nada melhor do que eleger um inimigo externo, o que tende a unificar o público interno – leia-se, o eleitorado, acrescentando-se a exibição de uma face não democrática, que impede o livre fluxo da informação. Resolveu eleger como inimigo externo o Rio de Janeiro (e os órgãos federais reguladores das águas), para onde segue a água liberada pela represa do Jaguari. Criou factóide, a falsa imagem de uma disputa de água para consumo humano versus água para geração de energia, para desviar a atenção da mídia que estava concentrada na crise hídrica em São Paulo, com reflexos ferozes no sistema Cantareira e em muitos outros no interior do Estado, o que tem levado a um racionamento explícito em alguns casos, e disfarçado, como é o caso da Grande São Paulo. Vale lembrar que a crise em si não foi causada por Alckmin, mas sim por condições hidrometeorológicas adversas. O complicado é como o governador candidato lida com o tema.
A disputa é falsa porque, no caso presente, a reservação privilegiada para consumo humano em nada ajudará, neste exato momento, o abastecimento de São Paulo e, de qualquer forma, a energia gerada pela diferença de potencial hidráulico em nada altera o nobre destino final da água, que é para consumo humano (ou animal).
Também é falsa pelo outro lado, porque a água economizada no reservatório da usina Jaguari ficará lá, para ser usada cá ou lá, no Rio de Janeiro. Para usar cá, faltam obras de interligação entre sistemas de abastecimento. Para usar lá, só abrir as torneiras, digo, comportas das unidades geradoras de energia elétrica, quando efetivamente começar a faltar água potável para a baixada fluminense.
A palavra final será (ou deveria ser) da Agência Nacional de Águas, a dona Ana, que segue o figurino criado por FHC, aquele que gerou coisas como Anatel e Aneel – que, parece, só (mas há exceções honrosas) têm olhos para a saúde financeira de suas reguladas (quase escrevo apaniguadas), esquecendo-se do consumidor e seus direitos. Dona Ana tem medo de se meter em briga de cachorro grande e o problema, diz a mídia, talvez caia no colo de outra candidata, a Dilma, não a da Sabep, mas a do Planalto.
Errei
Onde se lê “... geraldamente apupado popularmente como picolé de chuchu”, leia-se “... geralmente apupado popularmente como picolé de chuchu”.
* texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 15/08/2014.
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