segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Boi de Conchas


Como cheguei há pouco de fora, ainda não conheço direito o sistema de saúde pública de Ubatuba. Talvez esta seja a oportunidade de uma consulta com a Dra. Mônica, no Centro de Saúde do Perequê-Mirim. Talvez ela dê jeito, com seus remédios e medicinas. É que estou de queixo caído. Caiu-me, ao ver, ler e ouvir o Auto do Boi de Conchas. Uma exagerada percepção? Tenho comigo que a resposta é negativa.
Carrego uns certos preconceitos. Um deles é quanto à qualidade de artistas locais, os da terra, qualquer seja a terra. Ao longo da vida e, mais recentemente, participando do convívio de minhas filhas com seus amigos e colegas de escola, cultivei o preconceito quanto a artistas da terra, os violonistas, os guitarristas, os bateristas, as bandas de rock de garagens, o tchac-tchac. Alguns desses artistas até renderam CDs, dos quais, um ou outro, patrocinados por gravadoras ou "gravadoras", conforme se queira. A face mais visível desse preconceito relaciona-se com o tchac-tchac, essa excrescência musical tanto quanto são (ao meu ver) excrescências visuais e ecológicas as "Varandas" de Ubatuba, poluindo e rasgando as encostas que deveriam permanecer Mata Atlântica.
Assim, dentro dessa visão preconceituosa, fui à banca da praça Treze de Maio buscar o "Auto do Boi de Conchas". Rompido aquele infame (mas necessário) plástico que recobre o fascículo, balançou-se-me a visão preconceituosa. O primeiro contato foi com uma ilustração datada de 2004, de Françóis Guérin (nem imagino quem seja). Sua (des)proporção nos corpos e objetos e o colorido aquarelado conferem ao tema uma expressão de autêntico movimento, mas congelado pelo olhar do artista, tanto quanto uma câmera (dessas hoje comuns, digitais) congela a luz num momento perene. Creio que quase (à quarta olhada) reconheci o chapéu do Julinho (que ainda não conheço pessoalmente) num dos personagens retratados. Fiquei, é certo, confuso quanto às (o quê?) esferas (isso mesmo?) luminosas na encosta do morro, mas o próximo carnaval, certamente, desvendará isso. Faço parêntese: não gosto de carnaval, confesso, penitencio-me humildemente. Mas uma vez, faz anos, no Rio de Janeiro em pleno carnaval - ao qual não fui assistir na avenida-passarela - encantei-me com a garotada dos bairros e seu bate-bola autêntico, espontâneo, aquele que fica longe das câmeras da Globo e dos passistas de passarela. E, no entanto, no de 2010 estarei na - onde? onde? cheguei há pouco de fora e não sei - avenida de Ubatuba onde será o desfile.
O segundo contato foi com com o texto da Lenda tal como contada por vovô e levada ao público pelo Julinho, bem como a explicação do porquê de Ratambufe, que a consulta ao Houaiss on line registrou assim: "A palavra ratambufe não foi encontrada". Depois, O Começo, O que Fazemos, e as fotos e textículos (oh, por favor, não confundam U com Alça) elucidativos - mas, palavra, não vi Bado Todão. Ao depois, mas já ouvindo em meu precário som de fones de ouvido direto do computador, o Musical (lenda e introdução), Sumidouro, Seres da Lua Cheia, e por aí vai, e vendo as ilustrações e lendo as letras, fui apresentado a todo o Auto, à estória, à história, ao conjunto todo, e, claro, à música.
Ah, a música! Tenho comigo que há exigentes e indigentes em música e toda uma gama entre eles. Há os que são exigentes, no extremo do espectro, e negam (e argumentam muito bem) valor a Villa-Lobos. Há os que são indigentes, no outro extremo, e não negam valor a nada que lhes caia nos ouvidos, em geral acostumados a - nessa ordem, mas não necessariamente - música comercialesca, sertanejos fajutos, tudo aquilo que dura duas semanas nas rádios comerciais. Procuro, peripateticamente (a virtude não está nos extremos), o que se aproveita aqui, ali e acolá. Mas preconceito é foda (oooopps, f***, em linguagem decente) e fico incomodado com o tchac-tchac. Ah, a música do Auto do Boi de Conchas! Tem sim, um suave, um outro tchac-tchac, que não é aquele do desbunde do baterista, que, quando de ego inflado, faz a indefectível sequência (saudades do trema...) alucinante, progressiva e retumbante. Aos meus ouvidos tal sequência do ego inflado é idêntica a tudo o que veio antes e ao que virá depois. Mas no Auto do Boi não é assim. Ouço Destino do Boi e ouço ritmo, percussão, mas não tchac-tchac: ouço a pureza de instrumentos, e vozes, e um assovio, e magnífico afinado coral, e, sim, ritmo, saído diretamente da música forma e conteúdo.
Abre-se, então, a questão principal, estética, filosófica, da estética musical, e do infindável debate entre forma e conteúdo em arte, qualquer arte, mas especialmente em arte-música. Onde a dialética entre forma e conteúdo se dá de forma um tanto bizarra: o formal, em arte, não é uma estrutura abstrata, vazia, onde passa a residir um conteúdo concreto, mas também não é só conteúdo, nem matéria, a matéria dos signos musicais e dos instrumentos como o desconhecido ratambufe. A estética musical, como de resto qualquer estética, não é universal e atemporal. Fosse, trocar-se-ia "Pela ética na política" que ouvíamos e aplaudíamos, por uma formulação simples assim: "Pela estética na política", pois mentir, enganar e roubar são, simplesmente, coisas feias, ou não-estéticas, ou, para quem preferir, valores estéticos de sentido negativo. Ontem, animados, falávamos em ética. Hoje, meramente em estética na política. E, no entanto, não há lá muita propriedade em falar em ética em arte, mas, talvez, tão-somente, em estética. Ou não? É ética a arte do tchac-tchac, quando cativa o conhecido e estatístico ouvido médio contemporâneo? E, assim, aproveita-se, comercialmente, do que vende? Minha mulher e minha filha Elka, esta fã incondicional da mineira Ceumar, advogam, advogadas que não são, psicóloga uma e bióloga outra, que sem colocar o indigitado tchac-tchac o CD "não vende". Há que obtemperar. Ceumar vendeu, e bem, seu último CD ao som puro de seu violão e algum bem orquestrado acompanhamento, sem o tchac-tchac. Assim entendo a estética musical de "O auto do boi de conchas": não se rendeu ao comercialesco tchac-tchac, ainda que tenha, muito bem colocada, a percussão que inclui percussão clássica propriamente dita e a "muderna" (aqui pode-se falar em "pudê...") bateria, sem o famigerado apelo ao ego do baterista militante. Em uma ou duas palavras, a produção estética musical do "Auto" mantém uma pureza fiel ao espírito do que quer resgatar, a manifestação autêntica desta gente, da nossa gente (já então me incluo), não-comercial e sim folclórica. O valor que disso advém, creio, não será medido pela milhagem de vendas, mas apenas pelo prazer imedível (ministro não podia falar em imexível?) de cada um dos privilegiados que tiverem acesso ao fascículo e ao SMD de "O Auto do Boi de Conchas".
Por final, "Ora, apaga-se a luz dos que não têm o sonhar..." (Abate final). Nós temos o que sonhar. Até mesmo com as mangueiras que, então, um dia, haverão de muito frutificar em Ubatuba, resgatada sua adormecida vocação para o que é das gentes e da terra, os costumes, o linguajar, a comida, o artesanato e até - desabafo pessoal - o convívio com a praga que é esse bichinho díptero do qual, já no século 16, reclamava Anchieta: o borrachudo.

- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

Ubatuba: "O vereador quer dar?"


Julinho,
Faço referência a O efeito da vaca deitada.
Não o conheço. Aliás, conheço muito poucos caiçaras, visto que cheguei há pouco de fora, para usar, male-má, a sua linguagem arrevesada. No entanto, sinto-o interlocutor de longa data, amigo até, próximo que me sinto da tribo dos Bebe, ainda que só socialmente. Tive dificuldade em juntar os cacos e ler toda a história do Descobrimento do Brasil (para rimar, gargalhadas mil!), porque os títulos não descrevem a sequência (fosse nos áureos tempos da língua pré-acordo ortográfico o uso do trema seria soberbo: "seqüência"!). E cheguei, então, à presente postagem, sobre "O efeito da vaca deitada". Preocupou-me, a análise. Bem entendido, sei que quem nunca toma mel quando toma se lambuza. No entanto, alguns dos projetos por você anunciados como alvissareiros cheiram bem a demagogia, convenhamos.
Um deles me intrigou muito: "Projeto de lei que cria ’O vereador quer dar’. Trata-se de lei que propõe a cada vereador destinar 30% de seu salário, a entidades ou grupos culturais que queiram promover a arte entre jovens da cidade." Ora, Julinho, lei nenhuma proíbe vereador de dar. Dê o quanto quiser, dentre seus bens disponíveis. Jamais alguém, vereador ou não, esteve proibido de dar. No entanto, obrigá-lo a dar pode ter efeitos deletérios. Lei, se for para não ser cogente, lei não será. Apenas um arremedo, uma daquelas feitas "para não pegar". Ou dá, e a isso será obrigado, ou não dá, e ninguém poderá obrigá-lo. Dá quem quer, para quem quiser. Tomo-me como exemplo, tomo as dores dos mais velhos: já pensou que eu, que nunca dei, resolvo dar e gosto, aos quase sessenta anos de idade? E então descubro que perdi mais da metade, na verdade quase a vida toda, sem dar e sem saber o prazer que significa dar? Protesto. Não gostaria que me obrigassem a dar.
Agora falando sério, eu queria não falar... (só para citar Buarque, o Chico da ilustre família). Ainda que compreensível dentro do conceito da Realpolitik, a apropriação compulsória de um dízimo (um terço seria mais para trízimo...) não parece ser viável, nem justa. Um conhecido partido político, hoje (quase, pois se perdeu na malha das alianças) no poder, instituiu os 30 por cento compulsórios, porque partido desendinheirado, de proletários, para se contrapor a, entre outros, partidos de banqueiros, endinheirados, aquelas coisas de demos, que verdadeiramente são (vide os sobrenomes pomposos, Bornhausen entre outros), mas foi alvo de uma verdadeira caçada pela mídia.
(Refaço, porque ficou, acho, incompreensível: Um conhecido partido político instituiu os 30 por cento compulsórios mas foi alvo de verdadeira caçada pela mídia.)
Por que? Porque de nada adianta doar (compulsoriamente, o que equivale a não doar, mas a ser espoliado) 30 por cento de seus subsídios pessoais se a máquina, de uma forma ou de outra, o alimenta através de valeriodutos ou artimanhas outras. Insisto: ou dá porque quer, ou não dá, mas jamais use, para dar, o (dizer ou não dizer, eis a questão... o cu) dos outros. Ou dá, voluntariamente, de seus próprios e, portanto, recursos próprios, ou não dá. Os outros recursos seriam os públicos, os do povo, os dos contribuintes, os meus, os seus, os nossos. Se for assim, melhor melhorar para tornar melhor a lei: reduza-se em 30 por cento o percentual destinado ao Legislativo, criando-se vinculação: dos (entre 2% e 4,2%, faixas usuais, e, confesso, porque cheguei há pouco de fora, não sei quanto é em Ubatuba) percentuais previstos para o legislativo, do orçamento municipal, a parte retirada será destinada exclusivamente a "entidades ou grupos culturais que queiram promover a arte entre jovens da cidade."
Julinho, convenhamos, a proposição, mesmo assim, é falha. Querer é uma coisa, assumir o compromisso de fazer é outra, e fazer efetivamente é outra ainda. Quer promover? Promova! Quer promover com meu (seu, nosso, do povo) dinheiro? Promova, mas defina a quem, previamente, e me (a mim, a nós, ao povo) preste contas. Isso abre outra interessante questão, em vista da 5ª Caiçarada. Quais seriam as "entidades ou grupos culturais" que queiram, e mais do que queiram, promovem, a arte entre os jovens da cidade? Você m’as (me as) pode citá-las? Devagar com o andor, porque o santo é de barro, Julinho. Ainda mais se o andor for carregado pela tribo dos Bebe, à qual, afirmo afirmativamente, bem afirmado: pretendo intregrá-la, se tal honra me dada for.
Abraço
- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

Os carros-discoteca em Ubatuba


http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=27396
Cristiane,
Concordo com o presidente da ACIU, quanto aos carros-discoteca. Mas discordo que a falta de repressão tenha a ver com o contingente pequeno de policiais. Outras cidades, com os mesmos problemas de contingente insuficiente, resolveram esse problema. Cito exemplo que conheço: Assis, no sudoeste de São Paulo. Depois de anos convivendo com o problema, a vontade política uniu Prefeitura, Polícia Civil e Polícia Militar e, subsidiariamente, a Guarda Municipal, a partir de reclamações encaminhadas pelo Conselho Comunitário de Segurança. A verdade é que, naquela cidade, foi a iniciativa pessoal do prefeito que deu impulso à solução. Ele exigiu um "basta" à situação, argumentando que não seria necessário colocar todo o contingente o tempo todo para acabar com o problema. Bastaria uma bem articulada operação entre os agentes de segurança, bem como ampla divulgação pela mídia, para que, a partir de poucas apreensões de veículos, o problema acabasse, pelo efeito amplificador da divulgação das punições. Mas, para isso, foi necessário um período (curto) de "tolerância-zero", inclusive quanto aos "filhinhos de papais" - e aí está uma questão importante: nem todos os carros-discoteca são de turistas ocasionais. O quanto Ubatuba está disposta a enquadrar seus próprios moradores mal-educados? Apenas como complemento, a medida não impede que os aficionados do som automotivo realizem, anualmente, um grande encontro regional no recinto de exposições da cidade (que fica em lugar bem afastado de áreas habitadas), com direito ao som e ao volume que seus ouvidos aguentarem.
Saudações,
Elcio Machado
- texto publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ubatuba exibe folclore e cultura caiçara

Depois de muito tempo relegado ao ostracismo, no que não difere dos milhares de blogs, estes Exercícios de Cidadania estão de volta. Mas com novo foco: não mais Assis (SP), e sim, agora, Ubatuba (SP), sem se desviar de sua proposta, a de ser um ponto de vista do cidadão comum e um espaço para opiniões, onde o leitor esteja à vontade para comentar. Ou para responder, em nova postagem.


Neste retorno, o exercício da cidadania de se aproveitar de um espaço público para ficar embevecido com a surpreendente vitalidade da cultura popular: o Sobradão do Porto.

Boi de Conchas

Em Ubatuba (SP), o pequeno auditório da Fundart, no Sobradão do Porto, sábado, dia 19 de setembro de 2009, foi o palco para o lançamento de "O Auto do Boi de Conchas", pelo Grupo Folclórico Alegórico O Guaruçá. Trata-se de um fascículo de primorosa realização gráfica, que inclui um SMD grátis, ao preço de R$ 6,00. O Grupo, sob a direção de Julinho Mendes, optou por contar uma breve história de suas realizações, antes de apresentar parte do conteúdo musical e visual do Auto, texto do próprio Julinho, que fala sobre nascimento, vida, morte e ressurreição do Boi de Conchas. Pouco mais de 120 pessoas presentes, grande parte familiares e fiéis admiradores do trabalho do Grupo O Guaruçá, o pequeno auditório ficou lotado, propiciando uma interação imediata entre os músicos, cantores, atores brincantes e folcloristas de um lado, e a entusiasmada plateia de outro. O ambiente era favorável, decorado com alegorias, estandartes e motivos que contavam um pouco da história das formas de expressão de O Guaruçá -- cujo nome deriva da revista eletrônica homônima, no site www.ubaweb.com --, como Bloco Carnavalesco, Folia de Reis, as alegorias para a Festa do Divino Espírito Santo, e, especialmente, o Grupo Folclórico embasado na cultura caiçara -- e caiçara é o povo do mar, gente da serra é caipira. No entanto, como a cultura popular não tem fronteiras rígidas, o próprio Auto do Boi de Conchas é a integração entre essas gentes, a lenda do boi que, nascido no alto da serra, conheceu o mar, onde morreu e, ressureto, é visão para quem toca ou canta na beira da praia.

A introdução histórica do grupo se deu através de um seleto resumo musical e visual dos cinco anos de sua existência, a partir do movimento Pirão Geral de 2003. O trabalho musical apresentado foi primoroso, revelando maturidade e um acurado cuidado com os arranjos, com especial destaque para o emprego da percussão e do coral de vozes femininas, cuja harmonia e impecável senso de integração ao espetáculo demonstram cuidado técnico que não se alcança do dia para a noite. Os atores brincantes, do idoso Ferrinho à menina Maria Fernanda, fizeram composição, com suas alegorias, volteios e expressões, com o todo musical em palco, revelando a essência da proposta folclórica do Grupo.

A linguagem, como diz a própria descrição no fascículo, é contemporânea. A cultura popular não é estática, imóvel, com cheiro de mofo de museu tradicional. É ágil, viva, dinâmica, como o cheiro acanelado das folhas espalhadas no pequeno auditório. A par da pureza e ingenuidade das lendas, está um criterioso trabalho artístico que certamente consumiu horas de pesquisa, ensaio, confecção das alegorias, mas, principalmente, uma visão lúcida dos objetivos e dos caminhos a seguir. O todo integra a tradição oral, muito frágil e que somente sobrevive da voz do avô para os ouvidos do neto, à percuciente observação do que ainda é resgatável e aquilo que integra o novo da cultura. O próprio ratambufe, apresentado no espetáculo, criação caiçara recente -- se considerarmos que a história de Ubatuba remonta ao descobrimento do Brasil pelos europeus --, mostra essa dinâmica.

As lendas retratadas pelo Grupo, entre as quais a metade dragão, metade serpente da Gruta que Chora, fazem contraponto ao contemporâneo, à redescoberta de Ubatuba como a terra dos pássaros, observáveis e fotografáveis, à nova e lendária realidade do tangará-saltador, ave-símbolo da cidade e que, na expressão de O Guaruçá, é um pássaro abençoado: quem o vê e ouve é tomado por uma alegria contagiante, irreprimível!

O que disso resulta de importante não é só para agora, o deleite acessível hoje a partir dos espetáculos e do SMD de O Guaruçá. É, certamente, referência e fonte de pesquisa, perenizada em meio digital, para as gerações imediatamente futuras, e aquelas futuras de longo prazo, que nossa escassa sobrevida só permite imaginar. Ao retratar, reproduzir e preservar a cultura caiçara, o grupo O Guaruçá está, ele próprio, produzindo cultura e fazendo a história do povo caiçara.

O Grupo Folclórico Alegórico O Guaruçá tem endereço na internet. É necessário ter uma conexão de internet rápida (coisa rara na própria Ubatuba,. onde os excluídos digitais abundam), mas vale a pena conferir e ouvir as faixas de O Auto do Boi de Conchas, disponível em    http://www.oguaruca.com/
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sábado, 21 de junho de 2008

Audiência para não ouvir

Diz Houaiss que o verbete "audiência" é um substantivo feminino, e que significa
1. ato de ouvir ou de dar atenção àquele que fala; audição
2. ato de receber alguém com o objetivo de escutar ou de atender sobre o que fala ou sobre o que alega

O que aconteceu no dia 3 de junho de 2008, terça-feira, na Câmara Municipal de Assis (SP), não foi propriamente uma audiência, ainda que esse tivesse sido o objetivo dos vereadores que a provocaram. A limitação decorrente do formato adotado em resolução da casa legislativa para as audiências em geral -- a de terça-feira, a primeira realizada na atual legislatura, foi sobre o trânsito na cidade de Assis -- impossibilitou a abordagem de pontos específicos referentes ao trânsito, fazendo com que os manifestantes se ativessem mais a generalidades do que ao exame detalhado de situações e pontos-problema no trânsito da cidade. Audiência é para ouvir, ouvir a população, diretamente. Não apenas os setores institucionais, nem a parte organizada da sociedade: ouvir a população, diretamente. Claro que com direito a manifestação dos representantes de associações de moradores e de especialistas. Mas o que se perdeu, na audiência do dia 3, foi a oportunidade de ouvir mais extensamente o que o povo tem a dizer.

Audiência é para ouvir, não para ter uma resposta pronta para cada situação apresentada. Respostas assim podem ser superficiais e, por conseqüência, há o risco de frustrar a expectativa de quem se dá ao trabalho de ir a um evento desses. O formato adotado pelas audiências institucionais das agências reguladoras, por exemplo, é o de apenas ouvir, registrar, compilar e então submeter a exame de um corpo técnico o que se recolheu, oferecendo depois uma resposta, através de publicações abragentes e públicas.

Talvez tenha sido uma impropriedade, no formato adotado, conceder um tempo bem grande para a exposição do representante da Companhia local da Polícia Militar, que exibiu interessantes estatísticas, com a intenção, declarada, de justificar sua corporação, por vezes criticada por não ser mais atuante na fiscalização do trânsito. Críticas, na maior parte das vezes, injustas, como demonstrou o militar. Mas talvez não fosse aquele o local, nem o momento, para aquela exposição.

Do pouco que se debateu, efetivamente, sobre trânsito, ficou a certeza de que é acertada a intenção da Prefeitura de contratar especialista na área, para avaliar e propor soluções para o trânsito da cidade. Essa contratação, certamente, custará dinheiro, um dinheiro bem gasto, porque as linhas gerais do trânsito não são coisa para amador. É certo que os moradores de determinado local, pelo qual passam diariamente, têm o direito de dar palpite sobe o que vivem no dia-a-dia. Têm o direito de, se for o caso, meter o dedo em riste na cara do especialista, para apontar equívocos, equívocos localizados, circunscritos ao espaço de observação do morador. No entanto, sobre as grandes diretrizes, melhor consultar especialista, porque, do contrário, acontecerá como no futebol: cada torcedor é um técnico, e é preciso ter um técnico de verdade para a coisa não virar bagunça. É evidente, entretanto, que o técnico orienta, mas quem efetivamente decide e executa é o Poder Público, o qual tem, de resto, toda e a integral responsabilidade pelas políticas adotadas para o trânsito.

Do ponto de vista político, saltaram aos olhos, na audiência, duas coisas: a primeira delas, é a de que a gestão do trânsito, em Assis, sofre forte influência do poder econômico local, ao ponto de determinar diretrizes e obras, como foi o caso dos improvisados e perigosos dispositivos instalados no final da avenida Dom Antonio. E que o diretor do Departamento de Trânsito, Leonardo Godoi Palma, tem limitada influência política e respaldo nas decisões de seu órgão. Se os poucos vereadores presentes à audiência captaram bem o que isso significa, é possível que o Legislativo local tenha condições de intervir mais fortemente no que é de sua própria seara, o mundo das decisões políticas, no segmento referente ao trânsito.

Em qualquer hipótese, a audiência pública do dia 3 de junho de 2008, na Câmara Municipal, foi um passo no sentido da democratização da gestão do trânsito em Assis, e foi realizada com seriedade, retirando a aparência de que poderia ser uma iniciativa para inglês ver. [---]

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ceumar em estado puro

Gosto não se discute. Cada qual tem direito a seus gostos próprios, sejam eles compartilhados com grandes maiorias, restritos a minúsculas minorias, absolutamente individuais e, mesmo, idiossincrásicos. No entanto, inexiste o gosto em estado puro. De pronto, porque não é possível gostar ou deixar de gostar de algo que está fora do universo da pessoa. Não posso gostar, nem deixar de gostar, de música hitita, porque não conheço e nem sei se existiu. É muito provável que tenha existido. Todos os povos atuais conhecidos cultivam alguma forma de música, somente vocal ou com o acompanhamento, no mínimo, de instrumentos rudimentares. Posso elocubrar que os hititas, conhecidos por sua disposição para guerras, tivessem algum tipo de música marcial, com acompanhamento de instrumentos de percussão rústicos. Caso tenha sido assim, infelizmente nenhum artefato desses, fisica ou pictoricamente, chegou ao meu conhecimento.

O gosto é um produto cultural. A cultura japonesa valoriza o bonsai, árvores de considerável porte cultivadas em pequenos vasos, mediante um tipo de manejo que as torna adultas anãs, privadas da possibilidade de seu pleno desenvolvimento e saúde. Foi por isso que soou tão crível uma brincadeira que circulou na internet anos atrás, dando conta de que um japonês havia criado um gato dentro de uma garrafa, nela colocado ainda recém-nascido e dentro dela tratado, recebendo alimentação, água e cuidados de higiene várias vezes ao dia, denotando perseverança e paciência, reconhecidos atributos da cultura japonesa. Gosto não se discute, e não gosto de bonsai. Se é algo maravilhoso ver um bonsai natural, na natureza, árvores que conseguem sobreviver em cima de penhascos, de rocha quase pura, outra coisa é privar intencionalmente qualquer ser vivo inofensivo de seu pleno desenvolvimento, só para tê-lo como adorno de um jardim ou de um apartamento. Justifico o emprego da palavra "inofensivo": não tenho nenhum problema de consciência quando trucido larvas de mosquitos aedes aegypti, para não ter que caçá-los quando jovens ou adultos. É que eles são um perigo, para mim e para a comunidade.

Gosto não se discute. Disseminou-se a praga do "tchac-tchac" na música popular contemporânea, ao ponto de qualquer artista saber que, se quiser vender discos aos montes, precisará incorporar algum tipo de percussão persistente -- a tal bateria -- como acompanhamento. A bateria, que costuma ser indispensável no rock, é perfeitamente dispensável quando se trata de músicas do tipo que compõe e canta a Ceumar. Se, de um lado, é bem verdade que o acompanhamento de violões, violas, cavaquinho e outras cordas, bem como de madeiras e metais, pode, eventualmente, enriquecer uma ou outra música, de outro lado, em geral, basta o acompanhamento de um solitário violão para garantir o esplendor de uma música interpretada pela Ceumar.

A Virada Cultural Paulista brindou a cidade de Assis com vários shows e um imperdível espetáculo de dança, do Balé Stagium. mas a programação daqui não incluiu a Ceumar. Ela foi para Presidente Prudente, para apresentar-se no Teatro César Cava, na tarde do domingo. Era também imperdível e fomos para lá. Teatro lotado, Ceumar em estado puro, só ela e seu violão, suas músicas e as que fez em parceria com o baixinho Chico César, Zeca Baleiro e outros. Um amplo domínio do palco, um oposto do bonsai, a mineira de Itanhandu, delicada e gigante ao mesmo tempo, encantou e emocionou uma platéia que, de tão à vontade, cantou junto com ela várias das músicas dos três discos que Ceumar já gravou.

Voltamos um tanto extasiados. A Elka soube colocar em versos.

Curiosamente, Ceumar, por estar acompanhada só de seu violão e (à guisa de chocalho) uma pulseira de contas, pediu desculpas ao público, por não estar acompanhada de um conjunto de músicos. Gosto não se discute, mas, só para reafirmar, ainda bem que aconteceu assim, porque pudemos apreciá-la em estado puro, no melhor estilo banquinho e violão, sem nenhum incômodo "tchac-tchac".

terça-feira, 29 de abril de 2008

Padre Voador

Elevar um balão aos ares não foi a primeira façanha do Padre Voador. Seu primeiro invento foi uma bomba d'água, que levava a água do riacho Paraguaçu, em Salvador, até o Seminário de Belém, 100 metros acima. Na mesma linha, e no mesmo ano, inventou outro dispositivo, para drenar água do casco dos navios. Dispositivos funcionais, eficientes, tecnologias que foram incorporadas ao uso no dia-a-dia. Tinha 20 anos à época das invenções, o então seminarista. Só se tornaria padre no ano seguinte, integrado à Companhia de Jesus. O jesuita precisava de horizontes mais alargados e seguiu, então, para a Universidade de Coimbra, onde estudou Ciência Matemática, Ciências de Astronomia, Mecânica, Física, Química e Filologia. Seu curso de doutoramento foi na Faculdade de Cânones, da Universidade de Coimbra. Além de seus estudos de graduação e doutorado, exerceu as artes da Diplomacia e da Criptografia. Mas toda essa formação foi depois de seus principais inventos, aos quais se dedicou na época de sua formação no que seria hoje o curso colegial. Não era um aventureiro. Era um observador dos fenômenos da natureza, procurando entendê-los com rigor científico. Bem verdade que falamos da ciência da época, porque, quando fez subir aos ares seu balão, chamado por ele de Passarola, corria o ano de 1709.

Foi só na terceira tentativa que subiu aos ares a sua Passarola, um sucesso aboluto: o primeiro engenho mais-leve-que-o-ar, 74 anos antes dos irmãos Montgolfier voarem em um balão de ar quente, o que fizeram em 1783, quando a tecnologia disponível colocava o risco numa faixa aceitável. Se Santos Dumont é para nós, brasileiros, o pai da aviação -- em segredo, sem testemunho de terceiros e com ajuda de uma catapulta, os irmãos Orville e Wilbur Wright teriam voado num mais-pesado-que-o-ar três anos antes de Dumont, cujo vôo foi em público e numa máquina que elevou-se aos ares por seus próprios recursos --, não fica nenhuma dúvida na história mundial que o pai da aerostação é Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido em dezembro de 1685, na então Vila de Santos, em São Paulo.

Morreu novo, o padre Bartolomeu, aos 39 anos, numa cama do Hospital da Misericórdia de Toledo, na Espanha, onde havia se refugiado, para evitar a perseguição que, em Portugal, poder-lhe-ia mover a Inquisição (tinha sido denunciado a ela por heresia). Cento e oitenta anos depois de sua morte, seu corpo foi trasladado para o Brasil, em 2004, e está atualmente na cripta da Catedral da Sé, em São Paulo.

Tais considerações são a propósito de um outro "Padre Voador", que, também novo, aos 43 anos de idade, está desaparecido, ao tentar um desastrado vôo num mais-leve-que-o-ar, sem munir-se dos conhecimentos necessários à empreitada. Foi chocante ouvir sua própria voz, ao telefone, já com problemas no vôo, pedindo aos bombeiros de Guaratuba (PR) que alguém o ensinasse a operar o aparelho de GPS que havia levado.

Há risco em toda a atividade humana. Alguns são aceitáveis, e outros, definitivamente não. Dentre estes últimos, estão os riscos associados à imprudência.