quarta-feira, 17 de julho de 2013

Crise no Thamar Ubatuba por causa de Mamô


Ensaio phictício em ortographia muito amptiga exagerada

Tá bão, mas Thamar... Abriu-se crise na filial ubatubense do empreendimento philantrópico Thamar. É que os especialistas não se acertam quanto ao acolhimento, em seu mini-zoológico aquático, do Mamô, certamente um quelônio, mas não marinho. O problema é que se trata de uma tartaruga urbana, com traços genéticos italianos (quase com certeza da Calábria) e japoneses.

Ágeis nas águas, as tartarugas marinhas nem de longe são aparentadas com a tartaruga urbana mestiça de Ubatuba, o Mamô, que tem mais semelhanças com o jabuti, quelônio terrestre capaz de andar a incríveis 300 metros por hora. Essa é sua velocidade máxima. Mas raramente anda mais do que 50 metros em uma hora e faz, então, uma generosa pausa. Considerando a velocidade média, sem as pausas para descanso demoraria uns (40 m/h, 90 km) 94 dias para percorrer a orla de Ubatuba. Como dorme 10 horas por dia, senão mais, seriam necessários uns 190 dias para percorrer o trecho. O pior é que Mamô é meio cego, meio surdo, meio mudo e meio sem noção, além de não saber ler.

Há um problema a mais: Mamô já foi publicamente chamado de corrupto, e não deu qualquer resposta. Os Callichirus major da praia do Ubatumirim, chamados de vermes honestos do mar, protestaram de seus buracos, sem cair no modismo de sair em passeata, mas ostentando cartazes: "Não sou verme, sou crustáceo", "Sou corrupto com muita honra" e "Não chamem Mamô de corrupto, ele não é da família Callichirus".

Os especialistas do Thamar foram além e descobriram algo inusitado: Mamô é frequentemente flagrado de calças curtas, mesmo considerando que suas pernas, não é mentira, são curtíssimas. Na razão direta do encurtamento das calças, cresce o nariz de Mamô, adotado como bicho-símbolo nos boletins de um certo partido político local. Esse nariz encompridado anda na mira de um bacamarte, que já alvejou alguns bichos locais, incluindo um Phalacrocorax brasilianus.

Eita quelônio cumpricado esse Mamô, sô!


- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá, em 15/07/2013. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

`Narfabetismo´, um desvalor para Ubatuba

As quatro crases [no “cartaz” abaixo] são uma afronta à língua portuguesa. Turismo de qualidade, Ubatuba brilhando, acolhedora, produzindo esse tipo de convite que um "narfa" escreveu, e alguém não revisou? Quanto mais se escreve, mais erros ocorrem. Errar não é o problema, eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram, e (eu) muitos erros cometo, certamente. Errar não é o problema. O problema é não revisar antes da publicação. Que o diga o editor desta revista, que revisa e me dá croques na cabeça, de vez em quando – e ainda assim, na correria do dia-a-dia passa muita coisa... Não revisar é o problema, especialmente quando é um cartaz para ser impresso, coisa eventual que custa dinheiro. Colocar dinheiro público em algo sem qualidade faz obscurecer, e não brilhar, qualquer cidade, especialmente as de vocação turística, que pretendem turismo de qualidade.
Divulgação PMEBU

- publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá, em 04/07/2013

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Centro de Convenções de Ubatuba ficará pronto até carnaval de 2014

O prefeito de Ubatuba, Maurício Moromizato (PT), afirmou que o Centro de Convenções ficará pronto até o carnaval de 2014. Usando a expressão em inglês "deadline" (que em cronogramas é entendida como a data-limite de conclusão), disse que a estrutura será usada no Congresso de Secretários de Saúde, previsto para o período entre o carnaval e a Semana Santa do ano que vem, "mas na verdade nós queremos que fique pronto muito antes disso".

"Inaugurado entre aspas" no final da gestão Eduardo César, o Centro de Convenções não tem Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, não tem fossa séptica, não tem sequer padrão elétrico de entrada e a obra apresenta outros problemas, tanto que "não foi aprovada pela vistoria do DADE" (Departamento de Apoio ao Desenvolvimento de Estâncias, que gere o Fundo de Melhoria das Estâncias, criado pela Constituição de São Paulo, origem principal dos recursos usados no Centro de Convenções). O prefeito esclareceu que está cobrando da construtora refazimento onde foram detectados problemas e complementação das obras onde não foram realizadas. Citou o caso do asfaltamento realizado no local: "feito em dia de chuva, está degradado". Mas advertiu que será necessário gastar recursos financeiros municipais com as duas obras, "mais no Centro de Convenções e menos no Centro do Professorado".

Quanto ao Centro do Professorado, que inclui um teatro, apesar de mais próximo de ter a obra liberada para uso público, "o problema é que a Prefeitura deu a obra como entregue", apesar de incompleta. Maurício disse que está em curso uma auditoria sobre o Centro do Professorado, já que "o secretário da gestão anterior não informou" e é necessário saber quem pagou, se os recursos foram oriundos de rubrica orçamentária da Educação, o que definirá o uso possível da obra. De qualquer forma, "não foi inaugurado, não tem AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros), e tem um Termo de Ajustamento de Conduta firmado com o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico vinculado à Secretaria de Cultura de São Paulo).

O prefeito Maurício informou que há dois comitês ligados ao seu gabinete, encarregados de analisar essas "duas estruturas de construção da administração passada, não liberadas para uso". Uma das comissões é composta por representantes da Secretaria de Gabinete, Secretaria de Arquitetura e Urbanismo e Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba - Fundart, no caso do Centro do Professorado (e o teatro nele integrado), e ambas as secretarias e mais a Secretaria de Turismo, no caso do Centro de Convenções.

Indagado sobre o interesse dos empresários locais, que "dizem que o Centro de Convenções é o melhor negócio do mundo", coisa para parceria público-privada (PPP), "alguma proposta de investir dinheiro privado nisso?" A resposta foi negativa. "Nenhuma proposta de gestão, a priori será gestão pública, direta". Maurício esclareceu que, de qualquer forma, não seria PPP, "porque não existem parcerias desse tipo de valor inferior a 20 milhões de reais". Acrescentou que "Seria o caso de cogestão ou terceirização da gestão, ou gestão pública plena". Mas, de qualquer forma, não recebeu qualquer proposta de investimento de empresários no empreendimento.

Quanto ao teatro do Centro do Professorado, disse que houve sondagem, feita pela Porto Seguro, de um aporte financeiro anual, por cinco anos, para darem nome ao espaço, "como o Credircad Hall, por exemplo". Mas não como gestão do espaço, frisou. As negociações sobre isso ficaram inconclusivas, visto que o espaço não está ainda pronto para ser usado.

Povo da Cultura
Maurício afirmou que não há relação formal alguma entre a Prefeitura e uma "Comissão da Cultura", que elaborou as bases da lei municipal de Cultura, obrigatória para que o município se inscrevesse no Sistema Nacional de Cultura, "lei que já deveria ter sido aprovada na gestão anterior". Disse: "Revisamos o projeto, que estava dentro dos parâmetros do Ministério da Cultura, e enviamos para a Câmara para aprovação. Ponto. Aquela comissão esgotou sua função. Estamos agora no momento da Conferência Municipal de Cultura, gerida por uma comissão específica, que não tem dependência nem interdependência com aquela comissão".

Análise - Obras incompletas
A "Comissão da Cultura" que elaborou o anteprojeto da legislação municipal para ingresso no Sistema Nacional de Cultura era integrada por um grupo que se autodenominava "povo da Cultura". Um de seus coordenadores tem empresa de promoções artísticas em Ubatuba.

Como, além de incompletos, os dois prédios não têm tem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, não podem ser abertos ao público, apesar dos usos que já tiveram na administração anterior. No caso da "inauguração" do Centro de Convenções, prestaram-se à farsa, "abençoada" pelo pastor Kerliab Soares, o Museu do Automóvel, o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Litoral Norte (Sinhores), e o Ubatuba Convention & Visitors Bureau, além do ex-prefeito Eduardo César "et séquito". As informações foram obtidas na internet, conforme links citados abaixo.

No caso do "teatro", beneficiou-se empresa de promoções artísticas de Ubatuba, para encenação de espetáculos teatrais, com bom público, que no entanto correu riscos de segurança. Existe demanda por espetáculos do tipo, certamente. Cita-se comumente "economia criativa". Economia criativa não é deixar ao poder público o ônus de gastar dinheiro construindo um teatro, para depois utilizá-lo sob o discurso de não usar recursos públicos municipais. De não passar o pires, depois de ganhar o imenso pires. O "povo da Cultura" certamente ganhou enorme pires.

Seno
Seno, cosseno, tangente, integrantes de uma família da Geometria euclidiana. Pedro é Seno, nem cosseno e muito menos sai pela tangente. Em fase de conclusão do presente texto, precisei de seu auxílio, o do Pedro Seno, titular da Assessoria de Tecnologia da Informação, vinculada ao Gabinete do Prefeito. Ele fez lá suas pesquisas eletrônicas e, menos de duas horas depois do pedido, veio com a resposta, infelizmente negativa: "Verificamos o banco de dados SQL com as notícias relativas a gestão anterior e não há nenhuma notícia que trata especificamente da inauguração do Centro de Convenções de Ubatuba. Há notícias relacionadas ao Centro, mas nada sobre a inauguração." Fiz a ele pedido para integrar as notícias anteriores ao novo site da Prefeitura, considerando "que o conjunto das notícias produzidas pela antiga Assessoria de Comunicação pertence ao acervo municipal, visto que foram produzidas com dinheiro do contribuinte ubatubense, e devem ser disponibilizadas no site da Prefeitura, como registro histórico".

Fica, portanto, a dúvida. Há, citando como fonte a "Assessoria de Comunicação – PMU", textos idênticos, bem como fotos exuberantes, creditadas a Ana Gabriela (Fernandes), nos links 1 e 2. Politizar propagando inauguração farsesca?

Latinismo impróprio usado no texto: "Et séquito" (metade latim, metade português, como figura de estilo).

- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá, em 01/07/2013.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

É o Saci Urbano em Ubatuba


Recebemos esta semana, eu e a Marlene, aqui no nosso cantinho no pé do Funhanhado, o artista Thiago Vaz (thiagovaz.com.br), cujo heterônimo Iderê Dudu da Silva (algo como Madeira Escura da Floresta), hora nascituro no mundo artístico, é o autor do É o Saci (Urbano). Esteve acompanhado da dulcíssima Vanessa, para um almoço e uma conversa com o Julinho Mendes e com o editor desta revista, Luiz Roberto de Moura. A comida ficou por conta do mestre-cuca caiçara Julinho, que nos presenteou com um magnífico Azul Marinho, acompanhado de pirão, arroz e salada. Claro que demos nossa contribuição, disponibilizando o fogão e uma faca de cozinha com corte apenas razoável. Até a panela o Julinho trouxe. Sua generosidade foi ao ponto de ensinar à Marlene, passo a passo, como preparar a iguaria caiçara, da qual o Luiz Roberto explicou a origem: caiçara sabe que dá trabalho plantar mandioca (bem entendido, a planta com sua raiz comestível) e depois ralá-la e passar pela pedra de mó para virar farinha. Por conta disso, usa a banana  verde, que dá às pencas nas antigas terras de Coaquira. E em contato com a panela de ferro, a banana verde fica com o tom azulado que dá nome ao prato.

Iderê Dudu da Silva é heterônimo de Thiago Vaz, um jovem artista plástico baiano de nascimento que mora em Ribeirão Pires (SP), cujas intervenções em paredes e muros de São Paulo e outras cidades revelam trabalhos de alta qualidade e com uma ideia criativa, original, o Saci Urbano. É o mesmo nosso brasileiríssimo Saci Pererê, ou, como é conhecido aqui no litoral, Saperê. Mas é um Saci contemporâneo, urbano, calçado com tênis mas sem dispensar o cachimbo e o gorro vermelho, não o pontudo, outro mais assemelhado a um gorro. Nascido do mesmo colmo de bambu em dias de chuva como o Saperê, vive, contudo, no ambiente urbano, sujeiro às mesmas angústias que levaram às atuais manifestações dos jovens brasileiros. Ciclista, amante das ciclovias, quer um ambiente urbano no qual tenha mobilidade e no qual não precise causar poluição. Preocupa-se com as causas sociais, sem abandonar suas traquinagens: tem sempre um estilingue à mão, e não hesita em usá-lo para afugentar algum eventual rato Mickey que esteja a roer alguma abóbora, que é alimento para consumo humano e não para servir de lampião de raloim. E é aí que entra o Julinho, o criador do Raloim Caiçara, justamente no Dia do Saci.

Iderê sabe que a parte física de sua obra sofre de atroz efemeridade: se o proprietário do imóvel cujo muro foi presenteado com a obra de arte não a compreende, xingando-a de pichação, mandará pintar uma mortalha branca por cima. É também como as prefeituras costumam agir. Se a compreende ou, mesmo, se apenas gosta dela, permitirá sua exposição à radiação solar, à nociva radiação ultravioleta que esmaece qualquer tinta, à chuva que carrega poluentes, ao ar poluído (especialmente o de São Paulo). A obra física é efêmera, mas a ideia, o brilho da criatividade, é perene. Esse é o Saci Urbano, "É o Saci", a assinatura tímida de Iderê.
Em conversa de artistas não se mete a colher. Puderam conversar um pouco, Thiago e Julinho, e quem sabe não armam alguma coisa para o fim de outubro deste ano, aqui em Ubatuba? O futuro só o futuro revelará, mas nossa torcida é para que, em meio às chuvas de outono, nasça de algum colmo de bambu algum belo Saci caiçara, que se integre à paisagem urbana de nossa linguiça espremida entre o mar e a serra, a nossa Ubatuba.

Expusemos intimidades. Confirmamos: de perto, ninguém é normal. Mas ficou a certeza de que Iderê tem uma genialidade que talvez não alcancemos, nem nós nem ele, em profundidade, e que, queira ele ou não, compreenda ele ou não, se expressa através do Saci Urbano. De mim, confirmando suspeitas recentes, fica a certeza de que, dito de maneira muito doce, calou fundo a possibilidade de que eu esteja mesmo numa fase pré-Alzheimer, merecedora de cuidados. Além, claro, de minha rigidez racional constitucionalmente arraigada (o erro de Descartes, já denunciado em livro da obra do neurologista português António Damásio, que não por acaso minha filha Tatiana me deu de presente). O que não me impede, é claro, de ver os Sacis que rondam nosso cantinho no pé do Funhanhado.

Adendo
Um adendo. Talvez uma origem remota do Saci esteja no folclore asturiano, diz o site de etimologia Origem da Palavra, que não revela nomes de seus autores: trata-se do Trasgo. Baixinho, moreno, mancava da perna direita, vestia-se de vermelho e usava um gorro pontudo da mesma cor, diz o site: "Hoje vamos começar por um ser que visitava as casas de nossos antepassados do Norte de Portugal, o trasgo. Este era o equivalente aos gnomos e duendes de outras culturas. Seu nome era trasgu na mitologia asturiana.

Ele era baixinho, moreno, mancava da perna direita e tinha um furo na palma da mão esquerda. Vestia-se de vermelho e usava um gorro pontudo da mesma cor. Não era difícil reconhecê-lo, portanto.

Não façam essas caras de medo, ele não era dos piores. Ele era o responsável pelos barulhos que uma casa faz à noite e às vezes ficava travesso e quebrava alguma louça. De minha parte, acho que mais de um prato foi quebrado pelas crianças da casa e ele acabou levando a culpa.
No fundo ele era bonzinho, pois até fazia serviços domésticos quando se sentia bem tratado."
Alguma semelhança com o Saci-Saperê que descrevi em março de 2010? "Saci-Saperê, só para concluir, é o mesmo Saci-Pererê. É o Saci-perereg (do Tupi-Guarani Çaa Cy - olho mau; perereg - saltitante), do depoimento de M. L. de Oliveira Filho citado por Monteiro Lobato em seu (grafia original) "O Sacy-Perêrê - Resultado de um Inquérito", publicado em 1918. Usei a forma Saperê porque, nas palavras de Lobato, citando o depoimento de Procópio Silvestre, "No litoral é comumente chamado de Saci-saperê (pág 317)". Procópio acrescenta: "Os sacis do litoral apesar de travessos são bondosos, bem comportados, e alguns religiosos até."
Há sempre uma advertência necessária, quando se trata de Dudu. Jamais, leitor que conseguiu chegar ao fim do quilométrico texto, confunda o Dudu nome do meio do Iderê com um certo político local que infelicitou esta cidade.

- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá, em 26/06/2013.

Maurício: `Ainda não fui à Sabesp´

O prefeito de Ubatuba, Maurício Moromizato (PT), em evento sábado, dia 25, da "Prefeitura no Bairro" no Perequê-Mirim, disse que ainda não foi à Sabesp, apesar de ter recebido dirigentes locais da empresa em seu gabinete, para ouvir as demandas, "e estou ajudando". Segundo ele, ainda não é o momento de ir à empresa de saneamento para cobrar obras e responsabilidades e, eventualmente, dinheiro

O prefeito explicou que está se preparando, buscando informações técnicas e jurídicas, inclusive cópias dos contratos entre a empresa e cidades como Taubaté, São José dos Campos e Botucatu, "porque não se pode ir com muita sede ao pote e depois perder na justiça". Citou como exemplo de possíveis cobranças que a Sabesp não pagou nada a Ubatuba pela concessão do saneamento em gestões passadas, enquanto que Taubaté recebeu R$ 60 milhões e São José dos Campos R$ 80 milhões.

O prefeito explicou que a situação mudou a partir da criação da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte, porque o Governo do Estado interpreta que existindo a Região Metropolitana o saneamento básico deixa de ser municipal e passa a ser regional, caso em que o município perderia a titularidade da concessão do saneamento. A controvérsia, disse, já chegou ao Supremo Tribunal Federal. De qualquer forma, "o saneamento básico não está nas mãos do governo municipal, apesar de ser concessão municipal". Reafirmou a posição que assumiu em sua carreira política a favor do saneamento básico, pois sabe "o quanto impacta favoravelmente na saúde e no turismo". Acrescentou que "talvez, por conta desse histórico", a empresa em Ubatuba está mostrando boa vontade. No entanto, disse que "a Sabesp poderia ser muito mais rápida do que é".

O tema foi levantado por Elcio Machado, que disse ser morador em Ubatuba, no Perequê-Mirim, há cinco anos e que, durante esse período, a praia do bairro tem sido a mais poluída do município, "mais poluída do que a famosa praia do Itaguá". Afirmou que um dos principais problemas do bairro é a falta de saneamento básico, "saneamento pra valer, água tratada até o sertão, esgoto". Mencionou que haverá o problema da duplicação da conta paga mensalmente pelos moradores (que já têm água da Sabesp), quando houver coleta de esgoto, e que então os políticos precisarão se posicionar. Acrescentou que "Só que a Sabesp tem que falar que vai fazer, e fazer. Ouvir falar de onda limpa e uma porção de coisas, mas de concreto pouco acontece aqui no Perequê-Mirim".

O prefeito corrigiu que a poluição é na água do mar, o que está comprometida é a balneabilidade, não a praia em si. Quanto à questão das marinas, levantada por outro morador, quem respondeu foi o secretário de Meio Ambiente, Juan Blanco Prada, que disse da legislação sobre o tráfego de tratores para tirar e colocar barcos na água, "em linha reta", não para ficar circulando pela praia. Pediu que a população denuncie, se possível como fotos, porque sua pasta tem apenas dois fiscais e carro uma vez por semana para fiscalizar toda a extensão do município. Para as denúncias, informou o telefone 3833-4400, da Copam, Comissão Municipal de Proteção e Defesa Ambiental.

- texto publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá, em 28/05/2013.

sábado, 22 de junho de 2013

Moromizato: nenhum plano para a av. Nove de Julho

O prefeito de Ubatuba, Maurício Moromizato, em entrevista à revista O Guaruçá, afirmou que a posição oficial da Prefeitura é a de que não há, neste momento, nenhum plano para alterar a situação da avenida Nove de Julho, paralela à rua Guarani, no Itaguá. Disse que, no início da atual legislatura, o presidente da Câmara, vereador Xibiu, solicitou-lhe, oralmente, que estudasse a possibilidade de abertura daquela via ao tráfego de veículos de emergência, "ambulância e bombeiro", principalmente na temporada, "e todo mundo sabe que ali é uma avenida". No entanto, disse, "há um decreto aprovado pela Câmara, não sei precisar qual, de muitos anos atrás, transformando aquela avenida no que é hoje, e a Prefeitura não tem intenção nenhuma em revogar esse decreto".

O prefeito mostrou posição semelhante quanto à avenida Marginal norte (sertão) do Perequê-Mirim, paralela à rodovia sob gestão estadual, SP 055 Manuel Hipólito Rego, na altura do quilômetro 60. Disse que não tem compromisso nem de manter como está nem de abrir, "não fez parte de nenhum compromisso político com comerciantes e lideranças do bairro, nem foi tratado na campanha eleitoral". Lembrou que esteve no local, quando do evento Prefeitura no Perequê-Mirim, e que pediu ao administrador regional (Centro-Sul) estudos sobre o local, para melhoria no trânsito de veículos. Mas não se comprometeu com prazos: antes de qualquer cronograma são necessários recursos. "Tenho muita clareza de que uma das questões a ser colocada junto ao Governo do Estado e DER, ou, se houver a federalização da rodovia junto ao Governo federal, é a abertura das marginais", disse.

A origem dos recursos seria o Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias – DADE, vinculado à Secretaria Estadual de Turismo, que gere o Fundo de Melhoria das Estâncias, ou o Plano de Aceleração do Crescimento do Governo federal, o PAC, caso ocorra a federalização da rodovia.

A polêmica
Projetada como via de tráfego, a avenida Nove de Julho, que começa em sua ligação com a rua Leovigildo Dias Vieira, na altura da praça Alberto Santos (a dúvida é se a homenagem é a Alberto Santos, advogado, político, três vezes prefeito de Ubatuba, ou Alberto Santos Dumont, reverenciado aviador), conhecida também como "praça do esqueleto" (onde há o esqueleto de uma baleia), vai até a praça Capricórnio, em frente à continuação da diretriz da pista do aeroporto local. Essa praça tem uma pista de skate. A avenida não está mais aberta ao tráfego, exceto, em um trecho, pela calçada, para moradores para os quais a via é a única forma de acesso a seus imóveis. A calçada também está ocupada por estabelecimentos comerciais, em uma parte. Onde seriam as faixas de rolamento da avenida existem alguns equipamentos para lazer e alguma arborização, bem como uma ciclovia. Através de indicação, o vereador Xibiu, presidente da Câmara e integrante de uma das coligações partidárias que apoiou o atual prefeito, pediu ao Executivo, que tem a exclusiva competência para iniciativa a respeito, a liberação daquela via ao tráfego geral de veículos, e não apenas aos de emergência. A proposição, apresentada na sessão do Legislativo de 12/3/2013, motivou reação de moradores e comerciantes daquele trecho, que fizeram abaixo-assinado e pretendem continuar com seu uso preferencial da via como é hoje, repudiando tráfego de quaisquer veículos. Na sessão da Câmara do dia 18 último, ao ocupar a Tribuna Popular, Elton Herrerias, vinculado a atividades de skatismo, leu o abaixo-assinado em repúdio às mudanças propostas. Na mesma sessão, foi veiculada a informação de que a indicação do vereador foi arquivada.

Há outra questão referente àquele trecho, que é a regularidade dos imóveis, bem como o fato de terem sido aprovados desmembramentos de lotes que descaracterizaram o projeto original.
Não foi possível confirmar a afirmação de Maurício sobre "um decreto da Câmara", que ele não soube precisar qual é. Nada a respeito foi localizado com o uso do sistema de buscas do portal do legislativo, nem quanto a decretos, nem quanto a leis. De qualquer forma, exceto para administração interna da casa, a Câmara Municipal não edita decretos, que são atribuições do Executivo.

Quanto à avenida marginal do Perequê-Mirim, o que obsta o tráfego de veículos em seus dois primeiros quarteirões a partir do acesso do quilômetro 60 da rodovia é um coqueiro, protegido por um pequeno poste de concreto. O coqueiro é usado pelo comerciante local para colocar faixas de publicidade de seu estabelecimento.

Entrevista
A entrevista foi concedida dia 10/6/2013, depois de várias solicitações desde o início do mandato do atual prefeito, mas afinal acabou sendo agendada por iniciativa da própria Prefeitura, através da Ouvidoria municipal, cujo titular é o jornalista Saulo Gil. Foram tratados outros temas, que serão abordados nas próximas edições.

-Texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 21/06/2013. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A patrulha sionista chega a Ubatuba

No dia 8 deste mês de abril, o editor da nossa revista O Guaruçá, aqui de Ubatuba, publicou importante matéria sobre o Holocausto, dentro da perspectiva do Instituto Shoah de Direitos Humanos, junto à B’nai B’rith em São Paulo. O texto é assinado pela celebrada historiadora professora Maria Luiza Tucci Carneiro (USP, Laboratório de Estudos sobre a Intolerância), junto com Luiz Carlos Fabbri e Abraham Goldstein, sob o título "Após o Holocausto, onde o ser humano pode chegar?".

Ainda este mês, dia 21, O Guaruçá publicou texto de Abraham Goldstein, presidente da B’nai B’rith no Brasil, entidade judaica dedicada à defesa dos Direitos Humanos, sob o título "O Levante de Varsóvia e a luta pela dignidade".

São leituras atuais, necessárias, coisas para ensinar nas escolas municipais, estaduais e particulares, coisas para jamais esquecer. Mas é necessário um cuidado, lembrando antigo dito popular: pau que bate em Chico também bate em Francisco. Não há que falar em direitos humanos de judeus, de palestinos, de vítimas, de criminosos, trata-se de direitos de humanos. Para ter tais direitos, basta uma e única condição: a de ser humano. Ter sido vítima no passado não autoriza ninguém a vitimizar alguém hoje. Ter sido tratado de maneira desumana não autoriza ninguém, hoje, a tratar quem quer que seja de maneira desumana.

As expressões "patrulha", "patrulha ideológica", "patrulhar" foram muito comuns nos anos 80, aqui no Brasil, quando a esquerda desancava especialmente artistas e intelectuais em geral, dos quais até o início da redemocratização era aliada no combate à ditadura. Qualquer opinião que, remotamente, fugisse ao ideário da esquerda resultava em patrulhas e patrulheiros. Foi um período triste para a liberdade de expressão e opinião, quase tão triste quanto foi o período da ditadura instaurada em 1964. Patrulhas, contudo, creio, existem e sempre existirão - e o que escrevo hoje, de certa forma, não poderia ser considerado patrulhar? Creio que não. É a expressão de uma forte discordância com uma única expressão no artigo que tem a assinatura da professora Maria Luiza Tucci Carneiro: "... pelo antissemitismo político que, nos dias atuais, renascem das cinzas metamorfoseados de antissionismo...". Mas, topologicamente, colocar "antissionismo" em primeiro lugar como "antissemitismo político" isso sim é patrulhar, é fazer chegar a patrulha sionista a Ubatuba ("et orbi", como diria meu amigo que não conheci em vida, Eduardo Souza, jamais César).

O texto da professora Maria Luiza et alii coloca num mesmo saco de batatas o antissionismo e o neonazismo. Logo, se sou antissionista, sou neonazista e antissemita. Uma ova de tainha, professora. Nem nazista, nem neonazista, nem antissemita (fiz parêntese sobre a palavra "antissemitismo" no fim deste texto). Mas, certamente, antissionista, cabendo explicitar que nada tenho contra (na verdade, apóio) um lar nacional judeu, mas que, guindado ao status de Estado, precisa abrigar todos, e não apenas a maioria, abrigar todos os seus nacionais, sejam de quais etnias e convicções religiosas forem. Absolutamente nada contra o Sionismo original, de vertente generosa, humanística e socialista de Theodor Herzl. Mas, hoje, contra no que se transformou, contra o que tem hoje de injusto e violento e que promove conquista territorial através dos assentamentos, depois de ocupar militarmente os territórios que não são seus. Herzl não está vivo para defender suas ideias. Mas suas ideias estão vivas, e não são no que tenta transformá-las o sionismo de hoje.
O problema da abordagem da professora et alii (Abraham Goldstein incluso) é que, como o governo de hoje de Israel, eleito pelo povo - não necessariamente todo o povo - é sionista, ser contra o governo de hoje é ser antissionista e, logo, é ser antissemita político. Isso absolve automaticamente o governo israelense de todos os seus pecados, porque é impossível culpá-lo de qualquer coisa: culpá-lo é ser contra ele, é ser antissionista e, portanto, é ser antissemita.

Concordo integralmente com este trechinho do escrito pela professora et alii: "No entanto, para que esses princípios básicos de Direitos Humanos sejam cumpridos, para que o slogan ’Holocausto, nunca mais’ surta efeito, precisamos estar vigilantes, alertando para o perigo das ideias racistas e orientando nossos jovens a participar ativamente da sociedade, para o bem de todos". Então me pergunto, como Majd Hamad, de 15 anos, filho de uma brasileira, pode participar ativamente da sociedade, para o bem de todos? Ele foi preso neste mês de abril, dia 21, conforme relato divulgado pela BBC Brasil, porque atirou pedras em soldados. Quais outras formas de participar ativamente da sociedade lhe foram oferecidas pelo governo de ocupação militar sionista?

A maior prisão do mundo a céu aberto, um gueto - não o da Varsóvia de ontem, mas da Palestina de hoje -, fica em Qalqilya, cujas coordenadas geográficas 32°11′25.36″N 34°58′06.63″E podem ser introduzidas no Google Earth. Uma imagem da Wikipedia mostra a situação de maio de 2010, algo que remete a uma falsa questão: muro (wall) ou cerca (fence)? Os brasileiros sabem que chuchu dá em cerca, não em muro. Afora condições climáticas e tipo de solo, alguém que tente plantar chuchu na "cerca" de Qalqilya... A questão é falsa porque o fim da guerra fria foi marcada pela queda do "muro da vergonha", o muro de Berlim e, desde então, ficou muito feio falar em muro. A verdade é que se trata de um muro, uma consistente muralha da vergonha construída dentro de território não autorizado pela Linha Verde reconhecida pela ONU. Estima-se que 80% dos habitantes de Qalqilya economicamente produtivos trabalham para pessoas ou empresas israelenses. Surgiu, então, uma primeira experiência pública e exposta de apartheid, ônibus para (segregados) palestinos. Certamente a B’nai B’rith posicionou-se contra tudo isso, mas não encontrei referências na internet.

Parêntese necessário
Antissemitismo é ser contra os semitas. Os semitas são os descendentes de Sem, filho de Noé, aquele do dilúvio e da arca, e que inclui uma extensa relação de povos, incluindo os hebreus, árabes, etíopes e somalis. A apropriação da palavra para se referir exclusivamente aos judeus é coisa surgida no "final do século XIX na Alemanha, como uma alternativa estilisticamente científica para Judenhass ("Aversão a judeus")", diz a Wikipedia. Noé rende até hoje: embriagou-se com o vinho das videiras pós-dilúvio e um de seus filhos, Cam (alguns grafam Cão) teve o desplante de rir de sua nudez, certamente associada aos vapores alcoólicos. Resultado: Noé amaldiçoou não o seu filho petulante, mas o filho de Cam, seu neto Canaan. Foi por essa descrição existente na Bíblia que o pastor evangélico fundamentalista Marco Feliciano, que infelicianamente ainda preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, se sentiu autorizado a dizer que todo o continente africano (que teria sido povoado por Canaan e seus descentes), seus habitantes e seus descendentes são amaldiçoados até hoje.

Tolerância e cansaço
Participei, durante algum tempo, de um interessante grupo que se aglutinou, virtualmente, em torno de um jornalista do Estadão (hoje é também colaborador da Globonews), Gustavo Chacra, cuja ascendência é de origem árabe. Jornalista lúcido e não sectário, viu nascer de seu blog um grupo de pessoas, árabes, judeus, brasileiros descendentes de italianos e japoneses, uma miscelânea, que se reuniu durante bom tempo em restaurantes de São Paulo, civilizadamente, e que trocava e-mails com intensa frequência. Ninguém ali se despiu de suas convicções, mas a convivência foi possível e em clima de fraternidade. Acabou por ocorrer uma certa desagregação, a meu ver, provocada por brasileiros de origem nem remotamente hebraica ou árabe: apenas conflitos de personalidade, talvez cansaço do exercício da tolerância com o Outro, coisa que é comum em qualquer agrupamento humano. Pois bem, mesmo naquele grupo tolerante e aberto algo que sempre emperrava a possibilidade de debates civilizados de teor político ou ideológico era o raio-que-o-parta do rótulo antissionista=antissemita.

Para quem tiver paciência de ler, um bom exemplo dos debates travados no blog do Chacra é a postagem de 27 de junho de 2009, que teve 76 comentários, alguns meus, assinados por Elcio e, principalmente, por ElcioW.

Rotular geralmente não é bom. E, reconheço, isso inclui o rótulo "patrulha". Peço à minha meia dúzia de leitores uma pequena cumplicidade, a de fazer os ajustes necessários.


- texto originalmente publicado na Revista Eletrônica O Guaruçá, em 30/04/2013.