segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ubatuba, Costa Azul. Araraquara, Morada do Sol


Poizé. O Eduardo Souza é um saudosista do rádio, ao que deixou transparecer em Rádio, criatividade e lembranças. Saudosismos levam a saudosismos e, de repente, me lembrei que rádio, a Rádio a Voz da Araraquarense, depois Rádio Morada do Sol, em Araraquara, fez parte da minha primeira atividade profissional. A Rádio Morada do Sol aqui do Litoral Norte é do mesmo grupo. Eu era muito jovem, naquela época, uns 16 ou 17 anos, cabelão comprido, magro. Mas já tinha uns dois anos de estrada em redação de jornal. Guardo na lembrança bons amigos que fiz por lá, incluindo o Anael, meu muito dileto amigo, companheiro da Canastra, minha serra, de minha propriedade, em Minas Gerais.
Saudosismos levam a reminiscências, e personagens e cenas hilariantes se avivam, mesmo nos claudicantes de memória, como é o meu caso. Assim, ponho-me a lembrar do Jonas Tanuri e de seu vozeirão, à solta nos 640 KHz, todas as noites - exceto domingos, que ninguém é de ferro. Findo meu longo expediente, algumas vezes subia a escadaria que levava aos estúdios, para ficar de papo com o Jonas. Aprendi muito com ele, sobre a vida, mas especialmente sobre disciplina do trabalho. Jonas era muito disciplinado, jamais interferia na programação musical e lia, rigorosamente, nos intervalos, sem nunca esquecer qualquer, as mensagens dos patrocinadores.
Era a época dos reclames, textos em pequenas fichas azuis que os locutores liam, ao vivo. Tinha impressionante voz, o Jonas. De timbre grave e aveludado, sem impostar a voz, era de um falar macio, calmo, gracioso. Nosso papo se interrompia toda a vez que a luz vermelha de alerta se acendia, indicando "No ar". E Jonas pôs-se a ler a ficha azul, sobre uma oferta especial das Casas Pernambucanas, alguma peça com o tecido da moda: "Algodão cu infestado, imperdível, por apenas dezesseis cruzeiros". A voz permaneceu imperturbável até a completa leitura dos reclames do intervalo, mas a cara do Jonas ficou vermelha, apoplética. Apagou-se a luz vermelha e tivemos reações diferentes: liberei a dolorida gargalhada que estava a custo reprimindo. E ele desandou a falar impropérios contra o redator do reclame, "aquele carequinha chato!"
Os pouco mais de três minutos da música que estava tocando nos deram tempo de passar a limpo o ocorrido: Jonas não teve culpa, leu exatamente o que estava escrito na ficha azul: o danado do redator dos reclames tinha omitido (por erro de datilografia, é evidente) o "r" de "crú infestado". Disciplinado, Jonas não rasurou a ficha, mas sabia que não poderia mais lê-la naquela noite. Disciplinado, fez um breve relatório no livro de ocorrências e pediu que as inserções das Casas Pernambucanas fossem compensadas nos dias seguintes. Ficou-me a lição: é de caráter pedagógico atribuir a quem cometeu o erro o dever de corrigi-lo. Erros têm consequências nas etapas futuras de qualquer processo e, muitas vezes, quem cuida de apenas um segmento não faz ideia de como pode ser grande o abacaxi de quem cuida dos segmentos posteriores.
Os sérios problemas de saúde de sua velhice roubaram-lhe muito da lucidez e da memória. Mas o Jonas, seu vozeirão, sua postura profissional, permanecem vivos na minha memória, que, reconheço, é claudicante. 
- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá 

Em Ubatuba: notinhas de falecimentos


Cumpro o pesaroso dever de comunicar o falecimento de meu computador, creio que por causas naturais, em vista da avançada idade de alguns de seus componentes, mas também pela umidade salgada do lugar onde moro, aqui em Ubatuba. Por conta de contratempos, e para bem cuidar de assuntos familiares, não pude dar atenção adequada ao finado, e o mantive provisoriamente na câmara frigorífica digital pro defuntorum. Enfim ressurecto, depois do transplante de alguns componentes, inclusive a BIOS, pude afinal baixar e-mails e ler a revista O Guaruçá, para constatar que Ubatuba continua firme e forte com seus problemas de sempre. Basta ler as últimas postagens do Luiz Moura, sempre De olho em Ubatuba. Lamento ter perdido a comemoração do Dia do Saci Caiçara, pelos Amigos do Museu Caiçara e pelo Grupo Cultural "O Guaruçá", com a participação do Grupo de Contação de Histórias "E quem quiser que conte outra". Oportunamente quero contar sim algumas histórias, temos, eu e a Marlene, algumas ideias sobre isso. Mas desta vez não foi possível: não estávamos em Ubatuba. Só fiquei sabendo do evento ao ler a excelente matéria do Julinho. Perdemos também a imperdível observação de pássaros conduzida pelo Carlos Rizzo, e observem que a Marlene já tinha preparado tripé e máquina. Modestamente, gosto também de caçar pássaros, mas minha grande arma para isso são só os binóculos.


Faleceu também um dos coqueiros nos fundos de casa, de causas desconhecidas, visto que o outro, da mesma idade, continua viçoso. Diz o Osvaldinho que o esqueleto se manterá de pé por muito tempo, mas, assim que cuidadosamente coletar os dois magníficos caraguatás que ele abriga em seu ressecado tronco, vou retirá-lo, para plantar muda nova em seu lugar. Claro, dependerá da aprovação da Marlene, mas talvez plante também dois pés de Coffea arabica sp, café arábica típica. Agradecerei muito se alguém me indicar onde posso obter mudas dessa variedade, geralmente viçosa em locais sombreados. Dizem que havia muitos cafezais por aqui, lá pelo segundo quartel do Século 18.


O mais triste: faleceu uma fêmea de gambá, com os oito filhotinhos que tinha em sua bolsa marsupial. Foram vítimas da Jade, minha cachorra pastor-alemã grande e feroz (que a Marlene registrou em Jade é o nome dela. Ralhei delicadamente com ela, pois é uma idosa já meio cega e surda, e não há como recriminá-la por agir instintivamente e guardar ferozmente seu território. Os gatos da vizinhança são espertos, e eu achava que os gambás também o eram, mas o fato é que algo saiu errado, muito errado. Sempre os alimento, com as bananas de supermercado, nos fundos da casa, onde é frequente vê-los, mas jamais nas proximidades do portão da frente, e não deixo a Jade sair de seu espaço privativo. O Osvaldinho me diz que ainda moram três gambás adultos no forro de casa (toda a noite ouço os ruídos) e tenho certeza de que há filhotes, pois já os vi se esgueirando até mesmo no corredor interno da casa. A reprodução da espécie, portanto, está garantida. Mas de qualquer forma foi chocante o que aconteceu. Nesses momentos fico muito emotivo, e agradeci profundamente o Osvaldinho por ter providenciado os sepultamentos.


Chega de notinhas ruins. Em tempo: minha filha Tatiana fez um passeio fotográfico por Ubatuba e registrou, entre outras coisas, interessantes espécimes de cormorão biguá, ave que já foi objeto de comentário do Rizzo.


Um excelente verão a todos, porque a primavera deste ano grudou-se firmemente na estação seguinte.  

- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

Ubatuba lixo. Topa?


Faço referência a “E ninguém reclama...”.
Ué. Como "ninguém reclama"? O Luiz Moura vive reclamando, até parece metralhadora giratória (terei, oportunamente, sugestões a fazer), na seção "De olho em Ubatuba".
"Diziam que o paraíso era aqui", fala você, Adalberto Gastone. Não explicita quem dizia. Faz um bom tempo, bem antes de fixar interesse em ter um cantinho aqui, que leio com avidez o que a internet tem sobre Ubatuba, e muito pouco li sobre paraíso, a não ser paraíso perdido. No entanto, vim para cá, não na falsa expectativa de um paraíso, mas na possibilidade de juntar o existente ao possível e, sim, construir aqui o paraíso em terra, terra e mar, mar e serra do Mar.
A indignação é o primeiro passo. O segundo, percebo em mim pessoalmente, é mais difícil: meter a mão na massa, no lixo, no que fede. Mas talvez (é só talvez) seja o que efetivamente funcione, se for feito coletivamente. Vamos meter a mão na massa, Adalberto? Vamos buscar alternativas viáveis para que possamos nos livrar da sujeira de origem humana, do lixo de origem humana, e vamos deixar os urubus em paz, à cata do que a natureza (com - nenhuma, ou pouca - interferência humana), o mar e a serra lhes oferecem?
Dias atrás tive problemas com meu próprio lixo. O Samuca, caiçara daqui, legítimo, meu vizinho, meu fiel ajudante para poda de grama, recolhimento das folhas de coqueiro e quetais do chamado "lixo verde", perguntou onde jogar tudo aquilo, já que o local antes de sempre, a cerca da chácara do Dr. Osvaldo aqui no Perequê-Mirim, havia sido limpa (pelo poder público, sim, senhor, depois de visita pessoal de Andrade (Secretaria Municipal de Segurança Pública e Defesa Social) e do tenente Carvalho (comandante da Guarda Municipal) quando da campanha "Ubatuba Sustentável", uns meses atrás). Júlia, da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos, funcionária pública de boa vontade, constrangida, sabendo das deficiências da pasta para a qual trabalha, ofereceu solução alternativa: o japonês da estrada Usina Velha, que recolhe esse material para, em processo de compostagem, transformá-lo em adubo orgânico. Miguel, nome lusitano para um simpático japonês caiçara, ainda às voltas com os problemas para certificação ambiental de sua atividade, acolheu o que para todos nós é lixo, dentro de sua proposta de tratá-lo de maneira ambientalmente correta.
Os urubus de suas fotos não são os nossos adversários. Os humanos sim, os que produzem lixo, os que jogam lixo em lugares inapropriados, os que deveriam prover e não proveem o lugar apropriado, os que deveriam fiscalizar e não fiscalizam. Educação talvez seja a palavra-chave. Para nós, para eles, para nosso paraíso caiçara, o paraíso a construir.
Topa?
Talvez sejamos, eu e você (permito-me chamá-lo de você), apenas babacas e estrangeiros lá do "fú do mundo", na classificação talvez xenofóbica do Bacural (“Faz-me rir”) e de outros daqui, talvez possamos ajudar a florescer e a fazer frutificar as mangueiras de Ubatuba (“A vaca do Julinho”). Talvez, não mais do que talvez.
Reitero: topa
- Texto publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá

Ubatuba: as árvores de Iperoig


Faço referência a "O Dia da Árvore".
Uma contradição ideológica, mas, nem por isso, menos válida. Julinho Mendes nos anuncia duas coisas: plantará sua oitava árvore, e enviará a cada vereador de Ubatuba um pedido de lei para proteção das amendoeiras da orla da praia de Iperoig (do Cruzeiro). Recolhe-se do Anarquismo o princípio da ação direta, pelo qual não se deve delegar a solução de problemas a terceiros, nestes incluídos os políticos e o próprio Estado, mas, ao contrário, atuar diretamente, pessoalmente, como, no caso, plantando sua oitava árvore. Onde? No local anunciado, a praia de Iperoig.
No entanto, peripatéticamente (e sem o extremismo estoico [ai, a reforma ortográfica, saudades dos acentos agudos!] de Sêneca), como convém aos que gostam de passear ao ar livre, nas praias e sob a sombras das amendoeiras, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Lei humana nenhuma impedirá a ação do mar e (espera-se, pela ação direta e, se for o caso, pela desobediência civil) nada impedirá que as mudas de amendoeira sejam plantadas naquele lugar, cabendo à Natureza decidir se o gesto foi adequado ou não. Sem drama, nem dor, nem medo, nas palavras de Almir Sater e Renato Teixeira.
Mas, por favor, motosserra (aijizuis, será que o higienista Chirico vem por aí?) só com muito, extremo, exagerado, critério. É difícil dizer o que vale mais, se uma vida humana ou se a vida de uma árvore. In dúbio, como humano sou, e como tudo o que é humano me diz respeito, fico com a vida humana, mas não desprezo milímetro sequer da vida, qualquer vida, mesmo não-humana vida. Salvo "Perigo real e imediato", que, se muito não me engano, é tradução de título de algum filme hollywoodiano, nada de motosserra, por favor!
É o Dia da Árvore, e não plantei nenhuma árvore. Mas alguém plantou. Que os xamãs dos Bebe abençoem Julinho, ele está plantar.  
- texto publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá



O Boi de Conchas


Como cheguei há pouco de fora, ainda não conheço direito o sistema de saúde pública de Ubatuba. Talvez esta seja a oportunidade de uma consulta com a Dra. Mônica, no Centro de Saúde do Perequê-Mirim. Talvez ela dê jeito, com seus remédios e medicinas. É que estou de queixo caído. Caiu-me, ao ver, ler e ouvir o Auto do Boi de Conchas. Uma exagerada percepção? Tenho comigo que a resposta é negativa.
Carrego uns certos preconceitos. Um deles é quanto à qualidade de artistas locais, os da terra, qualquer seja a terra. Ao longo da vida e, mais recentemente, participando do convívio de minhas filhas com seus amigos e colegas de escola, cultivei o preconceito quanto a artistas da terra, os violonistas, os guitarristas, os bateristas, as bandas de rock de garagens, o tchac-tchac. Alguns desses artistas até renderam CDs, dos quais, um ou outro, patrocinados por gravadoras ou "gravadoras", conforme se queira. A face mais visível desse preconceito relaciona-se com o tchac-tchac, essa excrescência musical tanto quanto são (ao meu ver) excrescências visuais e ecológicas as "Varandas" de Ubatuba, poluindo e rasgando as encostas que deveriam permanecer Mata Atlântica.
Assim, dentro dessa visão preconceituosa, fui à banca da praça Treze de Maio buscar o "Auto do Boi de Conchas". Rompido aquele infame (mas necessário) plástico que recobre o fascículo, balançou-se-me a visão preconceituosa. O primeiro contato foi com uma ilustração datada de 2004, de Françóis Guérin (nem imagino quem seja). Sua (des)proporção nos corpos e objetos e o colorido aquarelado conferem ao tema uma expressão de autêntico movimento, mas congelado pelo olhar do artista, tanto quanto uma câmera (dessas hoje comuns, digitais) congela a luz num momento perene. Creio que quase (à quarta olhada) reconheci o chapéu do Julinho (que ainda não conheço pessoalmente) num dos personagens retratados. Fiquei, é certo, confuso quanto às (o quê?) esferas (isso mesmo?) luminosas na encosta do morro, mas o próximo carnaval, certamente, desvendará isso. Faço parêntese: não gosto de carnaval, confesso, penitencio-me humildemente. Mas uma vez, faz anos, no Rio de Janeiro em pleno carnaval - ao qual não fui assistir na avenida-passarela - encantei-me com a garotada dos bairros e seu bate-bola autêntico, espontâneo, aquele que fica longe das câmeras da Globo e dos passistas de passarela. E, no entanto, no de 2010 estarei na - onde? onde? cheguei há pouco de fora e não sei - avenida de Ubatuba onde será o desfile.
O segundo contato foi com com o texto da Lenda tal como contada por vovô e levada ao público pelo Julinho, bem como a explicação do porquê de Ratambufe, que a consulta ao Houaiss on line registrou assim: "A palavra ratambufe não foi encontrada". Depois, O Começo, O que Fazemos, e as fotos e textículos (oh, por favor, não confundam U com Alça) elucidativos - mas, palavra, não vi Bado Todão. Ao depois, mas já ouvindo em meu precário som de fones de ouvido direto do computador, o Musical (lenda e introdução), Sumidouro, Seres da Lua Cheia, e por aí vai, e vendo as ilustrações e lendo as letras, fui apresentado a todo o Auto, à estória, à história, ao conjunto todo, e, claro, à música.
Ah, a música! Tenho comigo que há exigentes e indigentes em música e toda uma gama entre eles. Há os que são exigentes, no extremo do espectro, e negam (e argumentam muito bem) valor a Villa-Lobos. Há os que são indigentes, no outro extremo, e não negam valor a nada que lhes caia nos ouvidos, em geral acostumados a - nessa ordem, mas não necessariamente - música comercialesca, sertanejos fajutos, tudo aquilo que dura duas semanas nas rádios comerciais. Procuro, peripateticamente (a virtude não está nos extremos), o que se aproveita aqui, ali e acolá. Mas preconceito é foda (oooopps, f***, em linguagem decente) e fico incomodado com o tchac-tchac. Ah, a música do Auto do Boi de Conchas! Tem sim, um suave, um outro tchac-tchac, que não é aquele do desbunde do baterista, que, quando de ego inflado, faz a indefectível sequência (saudades do trema...) alucinante, progressiva e retumbante. Aos meus ouvidos tal sequência do ego inflado é idêntica a tudo o que veio antes e ao que virá depois. Mas no Auto do Boi não é assim. Ouço Destino do Boi e ouço ritmo, percussão, mas não tchac-tchac: ouço a pureza de instrumentos, e vozes, e um assovio, e magnífico afinado coral, e, sim, ritmo, saído diretamente da música forma e conteúdo.
Abre-se, então, a questão principal, estética, filosófica, da estética musical, e do infindável debate entre forma e conteúdo em arte, qualquer arte, mas especialmente em arte-música. Onde a dialética entre forma e conteúdo se dá de forma um tanto bizarra: o formal, em arte, não é uma estrutura abstrata, vazia, onde passa a residir um conteúdo concreto, mas também não é só conteúdo, nem matéria, a matéria dos signos musicais e dos instrumentos como o desconhecido ratambufe. A estética musical, como de resto qualquer estética, não é universal e atemporal. Fosse, trocar-se-ia "Pela ética na política" que ouvíamos e aplaudíamos, por uma formulação simples assim: "Pela estética na política", pois mentir, enganar e roubar são, simplesmente, coisas feias, ou não-estéticas, ou, para quem preferir, valores estéticos de sentido negativo. Ontem, animados, falávamos em ética. Hoje, meramente em estética na política. E, no entanto, não há lá muita propriedade em falar em ética em arte, mas, talvez, tão-somente, em estética. Ou não? É ética a arte do tchac-tchac, quando cativa o conhecido e estatístico ouvido médio contemporâneo? E, assim, aproveita-se, comercialmente, do que vende? Minha mulher e minha filha Elka, esta fã incondicional da mineira Ceumar, advogam, advogadas que não são, psicóloga uma e bióloga outra, que sem colocar o indigitado tchac-tchac o CD "não vende". Há que obtemperar. Ceumar vendeu, e bem, seu último CD ao som puro de seu violão e algum bem orquestrado acompanhamento, sem o tchac-tchac. Assim entendo a estética musical de "O auto do boi de conchas": não se rendeu ao comercialesco tchac-tchac, ainda que tenha, muito bem colocada, a percussão que inclui percussão clássica propriamente dita e a "muderna" (aqui pode-se falar em "pudê...") bateria, sem o famigerado apelo ao ego do baterista militante. Em uma ou duas palavras, a produção estética musical do "Auto" mantém uma pureza fiel ao espírito do que quer resgatar, a manifestação autêntica desta gente, da nossa gente (já então me incluo), não-comercial e sim folclórica. O valor que disso advém, creio, não será medido pela milhagem de vendas, mas apenas pelo prazer imedível (ministro não podia falar em imexível?) de cada um dos privilegiados que tiverem acesso ao fascículo e ao SMD de "O Auto do Boi de Conchas".
Por final, "Ora, apaga-se a luz dos que não têm o sonhar..." (Abate final). Nós temos o que sonhar. Até mesmo com as mangueiras que, então, um dia, haverão de muito frutificar em Ubatuba, resgatada sua adormecida vocação para o que é das gentes e da terra, os costumes, o linguajar, a comida, o artesanato e até - desabafo pessoal - o convívio com a praga que é esse bichinho díptero do qual, já no século 16, reclamava Anchieta: o borrachudo.

- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

Ubatuba: "O vereador quer dar?"


Julinho,
Faço referência a O efeito da vaca deitada.
Não o conheço. Aliás, conheço muito poucos caiçaras, visto que cheguei há pouco de fora, para usar, male-má, a sua linguagem arrevesada. No entanto, sinto-o interlocutor de longa data, amigo até, próximo que me sinto da tribo dos Bebe, ainda que só socialmente. Tive dificuldade em juntar os cacos e ler toda a história do Descobrimento do Brasil (para rimar, gargalhadas mil!), porque os títulos não descrevem a sequência (fosse nos áureos tempos da língua pré-acordo ortográfico o uso do trema seria soberbo: "seqüência"!). E cheguei, então, à presente postagem, sobre "O efeito da vaca deitada". Preocupou-me, a análise. Bem entendido, sei que quem nunca toma mel quando toma se lambuza. No entanto, alguns dos projetos por você anunciados como alvissareiros cheiram bem a demagogia, convenhamos.
Um deles me intrigou muito: "Projeto de lei que cria ’O vereador quer dar’. Trata-se de lei que propõe a cada vereador destinar 30% de seu salário, a entidades ou grupos culturais que queiram promover a arte entre jovens da cidade." Ora, Julinho, lei nenhuma proíbe vereador de dar. Dê o quanto quiser, dentre seus bens disponíveis. Jamais alguém, vereador ou não, esteve proibido de dar. No entanto, obrigá-lo a dar pode ter efeitos deletérios. Lei, se for para não ser cogente, lei não será. Apenas um arremedo, uma daquelas feitas "para não pegar". Ou dá, e a isso será obrigado, ou não dá, e ninguém poderá obrigá-lo. Dá quem quer, para quem quiser. Tomo-me como exemplo, tomo as dores dos mais velhos: já pensou que eu, que nunca dei, resolvo dar e gosto, aos quase sessenta anos de idade? E então descubro que perdi mais da metade, na verdade quase a vida toda, sem dar e sem saber o prazer que significa dar? Protesto. Não gostaria que me obrigassem a dar.
Agora falando sério, eu queria não falar... (só para citar Buarque, o Chico da ilustre família). Ainda que compreensível dentro do conceito da Realpolitik, a apropriação compulsória de um dízimo (um terço seria mais para trízimo...) não parece ser viável, nem justa. Um conhecido partido político, hoje (quase, pois se perdeu na malha das alianças) no poder, instituiu os 30 por cento compulsórios, porque partido desendinheirado, de proletários, para se contrapor a, entre outros, partidos de banqueiros, endinheirados, aquelas coisas de demos, que verdadeiramente são (vide os sobrenomes pomposos, Bornhausen entre outros), mas foi alvo de uma verdadeira caçada pela mídia.
(Refaço, porque ficou, acho, incompreensível: Um conhecido partido político instituiu os 30 por cento compulsórios mas foi alvo de verdadeira caçada pela mídia.)
Por que? Porque de nada adianta doar (compulsoriamente, o que equivale a não doar, mas a ser espoliado) 30 por cento de seus subsídios pessoais se a máquina, de uma forma ou de outra, o alimenta através de valeriodutos ou artimanhas outras. Insisto: ou dá porque quer, ou não dá, mas jamais use, para dar, o (dizer ou não dizer, eis a questão... o cu) dos outros. Ou dá, voluntariamente, de seus próprios e, portanto, recursos próprios, ou não dá. Os outros recursos seriam os públicos, os do povo, os dos contribuintes, os meus, os seus, os nossos. Se for assim, melhor melhorar para tornar melhor a lei: reduza-se em 30 por cento o percentual destinado ao Legislativo, criando-se vinculação: dos (entre 2% e 4,2%, faixas usuais, e, confesso, porque cheguei há pouco de fora, não sei quanto é em Ubatuba) percentuais previstos para o legislativo, do orçamento municipal, a parte retirada será destinada exclusivamente a "entidades ou grupos culturais que queiram promover a arte entre jovens da cidade."
Julinho, convenhamos, a proposição, mesmo assim, é falha. Querer é uma coisa, assumir o compromisso de fazer é outra, e fazer efetivamente é outra ainda. Quer promover? Promova! Quer promover com meu (seu, nosso, do povo) dinheiro? Promova, mas defina a quem, previamente, e me (a mim, a nós, ao povo) preste contas. Isso abre outra interessante questão, em vista da 5ª Caiçarada. Quais seriam as "entidades ou grupos culturais" que queiram, e mais do que queiram, promovem, a arte entre os jovens da cidade? Você m’as (me as) pode citá-las? Devagar com o andor, porque o santo é de barro, Julinho. Ainda mais se o andor for carregado pela tribo dos Bebe, à qual, afirmo afirmativamente, bem afirmado: pretendo intregrá-la, se tal honra me dada for.
Abraço
- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

Os carros-discoteca em Ubatuba


http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=27396
Cristiane,
Concordo com o presidente da ACIU, quanto aos carros-discoteca. Mas discordo que a falta de repressão tenha a ver com o contingente pequeno de policiais. Outras cidades, com os mesmos problemas de contingente insuficiente, resolveram esse problema. Cito exemplo que conheço: Assis, no sudoeste de São Paulo. Depois de anos convivendo com o problema, a vontade política uniu Prefeitura, Polícia Civil e Polícia Militar e, subsidiariamente, a Guarda Municipal, a partir de reclamações encaminhadas pelo Conselho Comunitário de Segurança. A verdade é que, naquela cidade, foi a iniciativa pessoal do prefeito que deu impulso à solução. Ele exigiu um "basta" à situação, argumentando que não seria necessário colocar todo o contingente o tempo todo para acabar com o problema. Bastaria uma bem articulada operação entre os agentes de segurança, bem como ampla divulgação pela mídia, para que, a partir de poucas apreensões de veículos, o problema acabasse, pelo efeito amplificador da divulgação das punições. Mas, para isso, foi necessário um período (curto) de "tolerância-zero", inclusive quanto aos "filhinhos de papais" - e aí está uma questão importante: nem todos os carros-discoteca são de turistas ocasionais. O quanto Ubatuba está disposta a enquadrar seus próprios moradores mal-educados? Apenas como complemento, a medida não impede que os aficionados do som automotivo realizem, anualmente, um grande encontro regional no recinto de exposições da cidade (que fica em lugar bem afastado de áreas habitadas), com direito ao som e ao volume que seus ouvidos aguentarem.
Saudações,
Elcio Machado
- texto publicado originalmente na revista eletrônica O Guaruçá