segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ubatuba, Costa Azul. Araraquara, Morada do Sol


Poizé. O Eduardo Souza é um saudosista do rádio, ao que deixou transparecer em Rádio, criatividade e lembranças. Saudosismos levam a saudosismos e, de repente, me lembrei que rádio, a Rádio a Voz da Araraquarense, depois Rádio Morada do Sol, em Araraquara, fez parte da minha primeira atividade profissional. A Rádio Morada do Sol aqui do Litoral Norte é do mesmo grupo. Eu era muito jovem, naquela época, uns 16 ou 17 anos, cabelão comprido, magro. Mas já tinha uns dois anos de estrada em redação de jornal. Guardo na lembrança bons amigos que fiz por lá, incluindo o Anael, meu muito dileto amigo, companheiro da Canastra, minha serra, de minha propriedade, em Minas Gerais.
Saudosismos levam a reminiscências, e personagens e cenas hilariantes se avivam, mesmo nos claudicantes de memória, como é o meu caso. Assim, ponho-me a lembrar do Jonas Tanuri e de seu vozeirão, à solta nos 640 KHz, todas as noites - exceto domingos, que ninguém é de ferro. Findo meu longo expediente, algumas vezes subia a escadaria que levava aos estúdios, para ficar de papo com o Jonas. Aprendi muito com ele, sobre a vida, mas especialmente sobre disciplina do trabalho. Jonas era muito disciplinado, jamais interferia na programação musical e lia, rigorosamente, nos intervalos, sem nunca esquecer qualquer, as mensagens dos patrocinadores.
Era a época dos reclames, textos em pequenas fichas azuis que os locutores liam, ao vivo. Tinha impressionante voz, o Jonas. De timbre grave e aveludado, sem impostar a voz, era de um falar macio, calmo, gracioso. Nosso papo se interrompia toda a vez que a luz vermelha de alerta se acendia, indicando "No ar". E Jonas pôs-se a ler a ficha azul, sobre uma oferta especial das Casas Pernambucanas, alguma peça com o tecido da moda: "Algodão cu infestado, imperdível, por apenas dezesseis cruzeiros". A voz permaneceu imperturbável até a completa leitura dos reclames do intervalo, mas a cara do Jonas ficou vermelha, apoplética. Apagou-se a luz vermelha e tivemos reações diferentes: liberei a dolorida gargalhada que estava a custo reprimindo. E ele desandou a falar impropérios contra o redator do reclame, "aquele carequinha chato!"
Os pouco mais de três minutos da música que estava tocando nos deram tempo de passar a limpo o ocorrido: Jonas não teve culpa, leu exatamente o que estava escrito na ficha azul: o danado do redator dos reclames tinha omitido (por erro de datilografia, é evidente) o "r" de "crú infestado". Disciplinado, Jonas não rasurou a ficha, mas sabia que não poderia mais lê-la naquela noite. Disciplinado, fez um breve relatório no livro de ocorrências e pediu que as inserções das Casas Pernambucanas fossem compensadas nos dias seguintes. Ficou-me a lição: é de caráter pedagógico atribuir a quem cometeu o erro o dever de corrigi-lo. Erros têm consequências nas etapas futuras de qualquer processo e, muitas vezes, quem cuida de apenas um segmento não faz ideia de como pode ser grande o abacaxi de quem cuida dos segmentos posteriores.
Os sérios problemas de saúde de sua velhice roubaram-lhe muito da lucidez e da memória. Mas o Jonas, seu vozeirão, sua postura profissional, permanecem vivos na minha memória, que, reconheço, é claudicante. 
- texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá 

Nenhum comentário: