quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ubatuba sem internet, Prefeitura no Itaguá

Leituras de O Guaruçá
Ó nóiz aqui traveiz. Meu computador herdado ressuscitou - não no terceiro dia, mas pela terceira vez - graças aos esforços e competência do Vital e do Alex: ganhou uma placa-mãe Asus A8V nova. Nova? Usada, pois esse modelo já deixou de ser fabricado. Foi um bocado de tempo sem ler O Guaruçá. Fui ávido às páginas da revista, nesta segunda-feira. O computador funcionou, mas a internet... Bem que disse que não acredito em tudo o que leio em O Guaruçá: fiz desafio público quanto a internet barata e de qualidade apregoada pelo valentão Valente, presidente da Telefonica. Passou-se o mês todinho de março e a resposta continua a mesma: não há disponibilidade do Speedy para o Perequê-Mirim, nem há previsão para quando haverá. Então, aqui, só mesmo a Trix, via rádio. O problema é que ela própria depende da Telefonica Data e, portanto, só hoje pela manhã o sistema todo foi restabelecido. Assim, entendo o pedido de desculpas do Moura: Ubatuba ficou 12 horas sem Speedy (que o povo do ramo chama de slowly). Mas quem deve mesmo pedir perdão, de joelhos, é o Valentão.
Dei boas risadas com o Hotel "pausada". Mas mesmo o Moura, sempre De olho em Ubatuba, deixou escapar algo: aquele escracho de banco revela que Itaguá é um Município. Quem será o prefeito? Só ver a foto: Av. Leovigildo, "Itaguá - SP". E isso sob o copatrocínio (arre, o Acordo Ortográfico!) da Prefeitura de... de Ubatuba.
Estas são leituras amenas de O Guaruçá. Chegará o tempo de fazer leituras mais densas, porque os últimos três meses estiveram repletos de textos densos, pesados, desabafos de parentes que viram seus queridos morrerem sob precária assistência de saúde, o mistério a esclarecer sobre a Cruz Vermelha, obras inadequadas. Mas tudo a seu tempo, e meu tempo caiçara escorre mansamente.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruça

Ubatuba: 35 mil doses de vacina contra gripe H1N1

Informação
A estimativa da Superintendência de Proteção à Saúde de Ubatuba é de aplicar cerca de 35 mil doses de vacina contra a gripe A (H1N1), em todas as cinco etapas previstas na campanha nacional do Ministério da Saúde. Na primeira etapa, entre os dias 8 e 19 de março, foram vacinados aproximadamente 600 trabalhadores da saúde, todos da rede pública. Segundo o superintendente de Proteção à Saúde, o biólogo Neílton Nogueira de Lima, ainda não há definição do Ministério quanto à vacinação dos trabalhadores da rede privada.
As vacinas, fornecidas pelo Ministério da Saúde aos Estados, são repassadas aos municípios através de centros regionais. Semanalmente, as destinadas a Ubatuba são retiradas em São José dos Campos. Posteriormente, são repassadas às Unidades de Saúde da Família - USFs, onde ficam armazenadas em geladeiras, em temperaturas entre 2 e 8 graus. Esse sistema permite que as Unidades ofereçam a vacina diariamente, durante todo o expediente. No entanto, algumas USFs, como é o caso do Camburi, não são equipadas com geladeiras e, nesses casos, as vacinas são aplicadas mediante agendamento, já que sua conservação ocorre em recipientes térmicos. De acordo com o superintendente, a rotina é a mesma das outras campanhas de vacinação, já consolidadas no município.
A origem das vacinas é variada. Os indígenas e os trabalhadores da saúde, imunizados na primeira etapa, receberam doses das vacinas produzidas pelo Instituto Butantã. Os lotes para a segunda etapa são de vacinas importadas da França, fornecidas pelo Laboratório GSK. Essas vacinas francesas contêm um adjuvante que causou alguma dúvida inicial, se poderiam ou não ser aplicadas em gestantes. Segundo Neílton, o Ministério da Saúde, em nota técnica, liberou sua aplicação em gestantes. Há também lotes de uma terceira marca, vacinas também importadas da França. Todas, no entanto, têm a mesma eficácia para imunizar contra a gripe A (H1N1) (a "gripe suína"), segundo o superintendente.
Apesar de estar prevista a disponibilização de 35 mil doses para Ubatuba, o número efetivo de aplicações pode variar, já que o sistema público de saúde não tem informações exatas sobre o número de portadores de doenças crônicas. Como meta, segundo Neílton, Ubatuba deve vacinar pelo menos 80 por cento dos grupos focados pela campanha nacional, nas várias etapas.
Dia 22, começou a vacinação de gestantes, crianças com idades entre seis meses e dois anos, além de portadores de doenças crônicas. Essa etapa vai até o dia 2 de abril, nas Unidades de Saúde da Família e na Unidade Central. Dia 5 de abril, e até o dia 23, serão imunizados os adultos saudáveis entre 20 e 29 anos. Entre 24 de abril e 7 de maio serão vacinados os idosos com 60 anos ou mais, se portadores de doenças crônicas. Essa fase será concomitante à campanha de vacinação de idosos contra a gripe comum. A última etapa imunizará os adultos saudáveis de 30 a 39 anos.
Depoimento
Nesta segunda-feira, fui tomar minha vacina, por ser portador de doença crônica. Não havia fila na USF do Perequê-Mirim e fui prontamente atendido pela enfermeira Áurea, que providenciou também um documento que me faltava: a carteira de vacinação.
Ela retirou a vacina de um pequeno frasco de isopor, o que me chamou a atenção, em vista da explicação que o superintendente Neílton havia me dado. No entanto, segundo a enfermeira, esse é mesmo o procedimento adequado: o estoque principal fica na geladeira e, para evitar que ela seja aberta a todo o momento, as doses com previsão de aplicação para o período ficam armazenadas na caixinha de isopor, que é dotada de um termômetro. A vacina, conforme verifiquei no termômetro, estava a 6 graus.
Por acaso, fiquei conhecendo na USF do Perequê-Mirim outra superintendente, a de Atenção Básica, a enfermeira Sheila da Silveira Barbosa. Havia conversado com ela ao telefone, sobre a ausência de médico na USF do meu bairro. Mas esse é outro assunto.

-Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ubatuba: Saperê-Mirim no Perequê-Mirim


Foi sábado, aqui no pé do Morro do Funhanhado, onde moro. Saperê: não, não se trata daquela cana imprestável que nem para garapa serve. Já era noitinha e o gambá que mora no forro de casa já tinha saído para buscar sua comida na beirada do corguinho que passa aqui nos fundos. Quem me avisou do gambá foi a Toca, minha gorducha e simpática vira-latinha. E foi então que, olhando melhor para a cerca viva que separa o quintal do corguinho, vi um Saci-Saperê bem pequenininho, mirim mesmo. Deve ter nascido há poucos dias, talvez durante aquelas chuvaradas da semana retrasada, do colmo de algum taquaruçu de alguma das moitas que ainda existem nas bordas da Mata Atlântica. O danadinho soltava umas grossas baforadas do seu cachimbo, acho que para espantar os pernilongos, que estão numa abundância incômoda aqui no Perequê-Mirim. Mas, claro, são apenas os culex, que só enchem o saco, mas não transmitem a denque. Os aedes, felizmente, não estão dando as caras nas minhas imediações. Claro que cuido do meu quintal, com a ajuda do meu fiel vizinho caiçara, o Osvaldinho. Aqui não tem água parada.
Minha primeira reação foi chamar a Marlene. Tenho muita intimidade com minha esposa, companheira de década, mas, honestamente, nunca perguntei, e ela nunca falou, se viu algum Saci. E, honestamente, não sei qual seria a reação dela ao ver aquele Saperê-Mirim bem no nosso quintal. Além do mais, recebíamos visitas, dois amigos, para uma cerimônia íntima. Resolvi ficar quieto, mesmo porquê fiquei tão surpreso naquele momento que senti uma certa paralisia, um encantamento difícil de explicar. O danadinho afastou a ponta da carapuça vermelha, que lhe entrecobria um dos olhos, para melhor me observar. A cadelinha Toca (que ganhou esse nome porque nasceu na Cachoeira da Toca, em Ilhabela, quatro anos atrás, por ocasião de umas férias na praia de Paúba, em São Sebastião), entretida com a visão (e o cheiro, certamente) do gambá, nem se deu conta da presença do Saci. Trocamos um rápido e direto olhar, o Saci, curioso e eu, paralisado, quase hipnotizado, encantado. Mas estávamos em uma cerimônia íntima e ninguém convidara o Saci. E, de qualquer forma, não se fica chamando Saci para a mesa, quando presente uma botelha de consertada.
Explico. A botelha de consertada foi presente do Julinho, porque era bebida indispensável à íntima cerimônia de batismo, que se concretizaria só entre os varões, como manda a tradição. Fazer consertada é atribuição das mulheres, porque, conforme me explicou o Luiz Roberto, elas "consertavam", reparavam, a bebida, que tem um certo sabor e aspecto de quentão frio, tornando-a mais alcoólica ou mais doce conforme o evento, para que elas, mulheres, pudessem tomá-la para melhorar o astral. A homarada toma chachaça a seco mesmo, coisa intragável para o delicado paladar feminino. Mas, em cerimônia de batismo, em homenagem às mulheres que não poderão estar presentes, usa-se a consertada e tomá-la cabe apenas aos homens. O Luiz Roberto tinha explicado que o batismo só se completaria com três ritualísticas goladas em rápida sequência, que sorvi embevecido.
Mas voltemos ao Saci. Ele não estava a fazer nenhuma molecagem, não. Tenho a impressão de que estava curioso, apenas isso. Ou, quem sabe, imaginando qual traquinagem, qual pequena maldade, poderia fazer. Não sei ao certo. Mas o fato é que choveu coquinho três noites seguidas, atrapalhando o sono, como se alguém, ao fazer um estridente assovio, balançasse a touceira de coqueiros na frente de casa, com seus cachos de coquinhos maduros sobre o telhado que cobre sala e corredor. Recolhi um saco de coquinhos, daqueles sacos grandes de ração da Jade, minha velha, doente, muito doente, cachorra pastor-alemã. Está tão debilitada minha melhor amiga que, tenho toda a certeza, o Saci não vai bulir com ela. É certo que o danadinho faz toda a sorte de pequenas maldades, dá nó em crina de cavalo, esconde coisas, mas no fim é de boa índole, tem alma, sentimentos.
Tive vontade de falar do Saci à Ligia, minha filha, que, junto com o Felipe, seu namorado, estava em casa. Mas Ligia, tenho certeza, nunca viu Saci. Felipe, menos ainda, é paulistano urbano. Se a Elka, minha outra filha, estivesse aqui, ficaria muito à vontade de falar do Saci a ela, que estuda em Botucatu, terra oficial do Saci-Pererê. Também ficaria muito à vontade para falar dele ao Juliano e à Tatiana, meus filhos que moram em Araraquara, onde abundam Sacis caipiras. É bom citar que os dois são jacus, pois nasceram em Jales, onde também há Sacis.
Tive vontade de falar do Saci ao Julinho, que, com toda a certeza, já viu um. O Grupo Folclórico e Alegórico O Guaruçá tem até um boneco do dito cujo em tamanho real. Vi Sacis aqui em O Guaruçá. O Moura, Luiz Roberto, não sei se já viu. Ele é meio sério, meio cético, mas, afinal, também sou assim e já vi, e não tenho receio de dizer isso. Só que o ambiente era outro, cerimonial. Tratava-se de um batismo.
Sábado passado fui batizado Elciobebe, na Tribo dos Bebe, cujo patrono é Cunhambebe, aliado e protetor de Coaquira, destas terras. Meus padrinhos cerimoniais foram o Julinho Mendes e o Luiz Roberto de Moura, a quem, finalmente, pude conhecer pessoalmente por bem mais do que cinco minutos. Foram momentos agradabilíssimos. Agradeço-os pela visita, pela cerimônia, e peço-lhes as bençãos para que acreditem que vi mesmo um Saci-Saperê, mesmo que não tenha mencionado no momento. Não tenho como provar. A Marlene é fotógrafa, mas, quanto ao batizado, não podia estar presente e, quanto ao Saci, tive dúvidas se ela enfrentaria o danadinho. Ela é de enfrentar, sim, aranhas e teiús - e só agora me ocorre por que o teiú vinha se esconder numas pedras do quintal: por causa do Saci -, mas Marlene também enfrenta montanhaspatosabelhas que não baforam, nem assoviam, nem fazem traquinagens.
Saci-Saperê, só para concluir, é o mesmo Saci-Pererê. É o Saci-perereg (do Tupi-Guarani Çaa Cy - olho mau; perereg - saltitante), do depoimento de M. L. de Oliveira Filho citado por Monteiro Lobato em seu (grafia original) "O Sacy-Perêrê - Resultado de um Inquérito", publicado em 1918. Usei a forma Saperê porque, nas palavras de Lobato, citando o depoimento de Procópio Silvestre, "No litoral é comumente chamado de Saci-saperê (pág 317)". Procópio acrescenta: "Os sacis do litoral apesar de travessos são bondosos, bem comportados, e alguns religiosos até."

- Texto originalmente publicado em O Guaruçá e, posteriormente, no site da Sosaci.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ubatuba, Guerra, a paz de Gandhi, o túnel


Recebi hoje delicada cobrança do Marcos Guerra, por estar sumido aqui da revista O Guaruçá. Estou bem, mas ainda às voltas com problema de saúde em família, o que me impede de completar o processo de mudança para Ubatuba. Estou, pois, ainda, em Assis, a 700 km da cidade onde já mora meu coração.
Costumo escrever aqui em primeira pessoa, o que, no dizer de Pedro J. Bondaczuk, é uma prática que sofre condenações e epítetos de "arrogante, imodesto, convencido e outros quetais." Mas ele próprio, que também escreve em primeira pessoa, completa: "Bobagem. Entendo que se trate de manifestação de personalidade, de autoconfiança, de certeza quanto ao que escreve." Discordo do Pedro, quanto à parte final: ainda que se trate de manifestação de personalidade, nada tem de autoconfiança, de certeza quanto ao que se escreve. Tenho certeza de muito poucas coisas, cada vez menos, com o passar dos anos. Tento cultivar, faz tempo, o ver "o outro lado", talvez herança da formação na prática jornalística. Mas isso também não é fácil, minha mulher que o diga.
Recolhe-se, de Nietsche, que "As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras." Ele vai além: "Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." É bom ter convicções, mas temperadas pela dúvida. Tudo o que é pétreo, petrificado, revela uma certa ausência de vida. Isso vale também para as convicções pétreas. Só quem está vivo tem mobilidade, não é pedra.
Digo isto porque, apesar de ausente como autor, continuo sendo leitor ávido da revista O Guaruçá. Li os textos do Marcos Guerra, nesses últimos dias. Concordo com muito do que ele diz, mas tenho dúvidas, algumas severas, quanto a outras. Por exemplo, não quero integrar os 80% inadimplentes com o Imposto Predial e Territorial Urbano, mas quero aceitar a convocação que ele fez, em IPTU e a desobediência Civil em Ubatuba. Ele convoca uma grande parcela de moradores, definitivos ou eventuais, a transferir para Ubatuba seu título de eleitor. Já fui ao cartório eleitoral (onde fui muito, mas muito bem atendido, é conveniente dizer).
Tenho sérias dúvidas quanto a essa forma de desobediência civil porque, ao longo da vida, observei que ela acaba beneficiando não os humildes, os desendinheirados, mas aqueles que têm caixa e postergam os pagamentos porque sabem que haverá, ao depois, uma anistia fiscal dos acréscimos. Então, se posso pagar depois de amanhã, pelo mesmo preço de ontem, por que pagar em dia? Por conta dos "prêmios" oferecidos? Ora, convenhamos, é um chamariz para lá de ineficaz, como prova o índice de 80%.
O cerne da questão, acho, não está em pagar ou não pagar o IPTU em dia, mas em exigentemente fiscalizar a correta (do ponto de vista do bem público) aplicação dos recursos. Vale para coisas grandes e pequenas, conforme o ponto de vista. Vale para os grandes dispêndios com a destinação final do lixo, e vale também para as despesas menores, desnecessárias e perniciosas, como a vandalização e destruição do mosaico português escherniano, como, em 2006, mencionou Ramon Ruiz Escobar, ao fazer sua pergunta Um artista holandês em Ubatuba? Aliás, por onde anda o Ramon, já que seu e-mail, citado naquela matéria, já não está mais operacional?
Parte do material que compunha o vandalizado (pela Prefeitura, sob Dudu) mosaico português está na foto do Guerra que mostra: Não há luz no fim do túnel. Não sei se concordo. Diria, talvez, ainda não há luz no fim do túnel. Algumas ações judiciais do Guerra apontam para um fim de túnel, onde, eventualmente, haverá luz. O próprio mecanismo da democracia, se tudo o mais falhar, retirará o atual "dono do pudê" ao final de uns tantos dias, que o Moura, de boa memória, sabe contar.
Abre-se, aqui, outra interessante questão. Poderíamos, cautelosa e preventivamente, exigir compromissos dos próximos candidatos, para que tivéssemos bússola minimamente segura para nos orientar nas próximas eleições municipais. Mas, afinal, que segurança resulta de compromissos publicamente assumidos, como à farta nos revelou o Guerra ao registrar o em Greenpeace em Ubatuba? Houve alguma ação para tornar Ubatuba em efetiva "Cidade Amiga da Amazônia"? Chirico Serra, por escrito, firmou que não abandonaria a Prefeitura de São Paulo para ser candidato a governador do Estado. Valeu de algo?
Não, nenhuma ingenuidade é permitida quanto a isso. É necessário ir além do que diz, afirma e firma o candidato. É necessário saber de quem se acerca, qual a história de sua vida pregressa. Mas isso ainda é pouco. O necessário, mesmo, é ter um mecanismo eficaz de controle, como o previsto no valor universal Democracia: um corpo legislativo que efetivamente fiscalize. E ter, diretamente do seio da sociedade civil, organizações não governamentais que exerçam a democracia direta, controlando, pelos meios possíveis, o que fazem os gestores municipais, sejam do Executivo, sejam do Legislativo. Sobre isso, lembrando, na sequência, Julinho Mendes, a sra. Maria Cruz, o Elias Guerra, a ONG AMARRIBO, já tenho algo escrito, mas ainda não maduro (não sou movido só a ócio, por vezes deixo textos amadurecendo, porque, de impulso, é sempre possível escrever mais bobagens do que aquelas tantas que, inevitavelmente, escreveríamos depois de alguma reflexão. Quanto mais escrevemos, mais bobagens escrevemos, tenho isso como fato).
Há, afinal, uma luz do fim do túnel, porque os eleitores (aqueles que já o são ou venham a transferir título eleitoral para cá) poderão mudar os rumos atuais (ou mantê-los, é necessário dizer). Mas, para isso, será necessário contar com veículos de comunicação de massa sólidos, duráveis no tempo, pluralistas, o que, lamento dizer, ainda não vi em Ubatuba, exceto, talvez, um pouco, aqui em O Guaruçá (o Moura sabe que qualquer dia vou falar sobre isso). Mas esse é outro dos textos sob amadurecimento.    

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruçá, em 24/1/2010.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Corredor Remendão Raposo Tavares - CRRT


Espertamente, a cobrança dos novos pedágios do Corredor Raposo Tavares -- que, aqui, chamarei de Corredor Remendão Raposo Tavares - CRRT -- começou quando do aumento de tráfego por conta das festividades de Natal-Ano Novo e das férias escolares. A cobrança foi precedida de um remendão geral nas rodovias integrantes do CRRT, feito pela concessionária CART (Concessionária Auto Raposo Tavares). De uma maneira geral, CRRT aproximadamente igual a CART.

No que consiste o remendão? As vias que compõem o sistema há muito estão com a base do piso das faixas de rolamento bastante degradadas. Afundamentos causados por veículos de carga mostram que a estabilização da base não foi bem feita, quando da construção das rodovias. "Panelas", como são chamados os buracos causados por vários fatores, mas principalmente por falhas da base e ação erosiva de águas pluviais, são frequentes em todo o sistema. Pouco adianta consertar o piso flexível das pistas, coisas do tipo "recapeamento pontual", se a base não for estabilizada. As operações tapa-buracos do DER, antes da concessão do sistema a uma empresa particular, sempre foram realizadas com periodicidade irregular, mirando os efeitos e, jamais, as causas. Efetuada a concessão, o que mudou? Nesse sentido, nada. A CART remendou o CRRT, maquiou os defeitos da pista, correu contra o tempo para colocar em operação os caça-níqueis das praças.

Nem são tão níqueis assim. Em valores da data-base de julho de 2008, valores máximos (tetos) de R$ 0,077078
(setenta e sete mil e setenta e oito milionésimos de Real) para rodovia de pista simples e de R$ 0,107910 (cento e sete mil, novecentos e dez milionésimos de Real), para rodovia de pista dupla, segundo o edital de licitação da concessão (http://www.artesp.sp.gov.br/audienciasPublicas_Raposo/arquivos/Anexo%2004_CORREDOR%20RAPOSO%20TAVARES.pdf).

Nunca trafeguei pela Turnpike, auto-estrada da Flórida, EUA, famosa por sua qualidade. Mas internet tem dessas coisas: alguém trafegou, conhece, relata. Tem no site do Azenha, http://www.viomundo.com.br/opiniao/os-pedagios/
e transcrevo um trechinho: "Fazendo a conversão, na New York Thruway, grosseiramente, o motorista paga 3,5 centavos de real por quilômetro rodado. Na Flórida Turnpike, 8,5 centavos de real por quilômetro rodado."

De qualquer forma, basta simples consulta ao Toll Calculator da concessionária da Turnpike (será que a CART tem algo semelhante, tem ao menos um site que seja mais informação e menos propaganda?), em http://www.floridasturnpike.com/TRI/index.htm

Escolhi o percurso abaixo, de aproximadamente 100 milhas, ou seja, 161,26 km:
From: M193 - Yeehaw Junction (SR 60)
To: M93 - Lake Worth (Lake Worth Rd.)
For a 2 axle vehicle to travel 100.20 miles
Toll with SunPass is $5.90
Toll with Cash is $7.50

Só fazer as contas, pelo dólar de hoje, 21/1/2010:
1,78700 * 7,50 = 13,4025
13,4025 / 161,256 = 0,0831131865

Portanto, pouco mais de 8 centavos de real por quilômetro rodado, de carro, se pagamento em dinheiro.

Aqui, no CRRT da CART, quase 11 centavos de real por quilômetro rodado, nove pedágios a cada entre 43 e 63 (média 49,3) km. Essa quilometragem inclui os acessos a cada uma das cidades (algo como "quilometragem bruta", mas você só percorrerá a "quilometragem líquida"). Você observou qualquer redução no custo do IPVA desde que começaram os pedágios concedidos? Falacioso, portanto, o argumento que diz "quem usa, paga". Você paga, usando ou não. E depois, se usar, paga novamente, e paga caro, muito caro. Então, você diria: ah, mas a rodovia agora é segura, está muito melhor. Está mesmo muito melhor? Melhorou algo na segurança, há catadióptricos de sinalização, guard-rails e sistemas anti-ofuscamento? Tem lá no edital de concessão mas, na prática, isso existe? Os SAU (Serviço de Atendimento ao Usuário) são feitos de containers pintados de branco, longe das pistas de rolamento. Compare com a Rodovia do Oeste (Castello Branco), onde os SAUs são à beira da rodovia. Mas poderiam ser a centenas de metros da pista, porque o edital só fala em distância mínima, e não máxima.

Regular, exercer a função de regulação, custa caro. Custa caro ao Estado manter uma agência reguladora, que regula distância mínima mas não máxima, que diz uma porção de coisas que devem ser feitas mas depois não fiscaliza. Claro, nós, usuários, podemos reclamar. Ao bispo. Ao bispo de Assis, coitado. Porque, se você quiser exercer cidadania, prepare-se para uma grande perda de tempo, já que a agência reguladora, a que custa caro, será pouco mais do que uma garota de recados das concessionárias, como, de resto, são todas as agências reguladoras formadas desde o grande marco da principal reguladora que só regula o que é de interesse das concessionárias, a ANATEL do Serjão, modelo de privatização de todo um mundo sob a visão FHC.


É bom mencionar que a CART é da Invepar, estrutura societária e de negócios formada pela construtora OAS, pela PREVI, e, mais recentemente, FUNCEF e PETROS. Uma grande construtora, três grandes fundos de pensão.

Há uma pergunta final. Todos sabem que é profundamente impopular a instituição de pedágios. Por que fazer isso às vésperas de importante eleição nacional? É só uma pergunta, claro. Mas há outra. De onde sairão os recursos financeiros das custosas eleições presidenciais que se aproximam? Ganha picolé (de Sechium edule, uma cucurbitácea conhecida por chuchu) quem conseguir responder.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ubatuba: buraco redondinho, rampa para inglês ver


                                                                                                                                       foto Luiz Moura 

Duas coisas me chamaram a atenção ao ficar, como faz o Luiz Moura, De olho em Ubatuba: primeiro, o formato do “Buraco do Resgate”. Bem redondinho, escuro, faltam-lhe, claro, as pregas, mas me lembra as latrinas rudimentares que às vezes encontramos na zona rural do interior caipira. O formato de agora é igualzinho ao registrado pelo Moura em setembro de 2005. Paliativos, parece, são a tônica para enfrentar os problemas da cidade, grandes e pequenos. A causa não vem ao "causo", trabalha-se só na consequência. Tapando buracos. Assis tinha um enorme buracão, uma erosão que acompanhava o traçado de um córrego, verdadeiro riozinho caudaloso quando das grandes chuvas. Até que alguém resolveu levar o problema a sério. Hoje chama-se "Parque do Buracão", abriga uma grande área de lazer, um Museu de Arte Primitiva, salas e salão para eventos e reuniões dos Conselhos Municipais e está perfeitamente integrado, urbanisticamente, à cidade. O córrego foi em parte canalizado e hoje, mesmo quando das grandes chuvas, não mais erode as laterais de seu leito.
Cito Assis porque conheço um pouco melhor o que se passa ali, mas há uma grande variedade de cidades, grandes e pequenas, onde os problemas, grandes e pequenos, são levados a sério por um ou outro - nem todos - governante municipal, geralmente não apequenado.
Mas as fotos do Moura, tanto a de 2005 como a de agora, mostram um outro problema: aparentemente, há rampa de acesso para cadeirantes, na esquina (imagem acima). Mas é só aparência. Qualquer um que já tenha estado em cadeira de rodas, ou empurrado uma cadeira de rodas, sabe que o degrau existente naquela rampa dificulta muito a acessibilidade. Sozinho, dificilmente o cadeirante conseguirá transpor o obstáculo. Precisará de ajuda, e não é essa a ideia da acessibilidade. Para tudo o que o deficiente físico possa fazer sozinho deve ser provida a possibilidade de fazê-lo sozinho. Do jeito que é a rampa, trata-se de mais uma obra para inglês ver.

-Texto originalmente publicado na revista eletrônica  O Guaruçá


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ubatuba e as democracias adjetivadas


É possível que venhamos a divergir um bocado, eu e meu amigo culto e ainda oculto Eng. Guaracy, mas tenho certeza de que sempre num nível de elevado respeito.
Pergunta o Eng. Guaracy: E a democracia cultural em Ubatuba?
Quem podia dizer que não havia democracia na ditadura pós-64? No entanto, a que havia, naquela época, era a democracia não-democracia, a democracia adjetivada. Se exige algum adjetivo para caracterizá-la, não é democracia, segundo diz uma corrente de cientistas políticos. Democracia limitada é não-democracia. As eleições, para os principais níveis, eram indiretas. Os partidos políticos estavam proscritos, só existiam uma Aliança e um Movimento. Claro que isso não deu certo, e vieram as sublegendas Arena 1, Arena 3, MDB 1, MDB 2. Mas só para candidatos a prefeito ou a vereador (exceto nas capitais). Para governador, presidente e prefeitos das capitais as "eleições", que eram a sacramentação dos ungidos, eram indiretas. Ora, argumentavam naquela época alguns, nos Estados Unidos as eleições presidenciais também são indiretas. Há um complicado método de delegados por Estados federados, mas o que vale mesmo, na prática, é o voto popular, desde as prévias para indicação dos candidatos. Mesmo lá o método experimenta seus limites, como a suspeita de que Bush filho, na primeira eleição, teve menor votação popular que seu opositor. Aqui, em São Paulo, o governador ungido ou era de família quatrocentona ou preposto de instituição financeira. Era também a "democracia" da ocupação do Estado pelos coronéis. Não o coronelato dos sertões, mas um tipo peculiar de nepotismo sob a forma de ocupação dos cargos executivos operacionais do Estado por coronéis do Exército, da Aeronáutica, da Marinha.
Então, por raciocínio análogo, em Ubatuba, existe democracia cultural, ninguém está impedido de produzir cultura. Jamais me canso de citar, exemplo disso é O Guaruçá - Folclórico e Alegórico, que se apresenta ao ar livre ou em espaços cobertos, mas sempre gratuitamente, mesmo sem ter patrocínio oficial. No entanto, é uma não-democracia cultural, porque é sabido que a produção e a reprodução de cultura somente sobrevivem se tiverem um mínimo de apoio oficial, dados os custos envolvidos. A OSESP, tucana até a raiz da alma, é o que é porque conta com apoio oficial, além, claro, de ter uma invejável carteira de assinantes. É esse sistema que permite uma orquestra de alta qualidade, que funciona regularmente na Capital e que, em curta temporada uma vez por ano, vai também ao Interior. A Virada Cultural consegue levar qualidade a uma grande quantidade de público, na Capital e no Interior. Assim também iniciativas privadas, como as do SESI e do SESC.
Em Ubatuba, porém, o mau hábito da apropriação particular do que é público, ou deveria ser, é algo arraigado, por anos a fio de desmandos e uma certa compassividade da população. Talvez contribua para essa passividade o que relata o Marcos Guerra, em Dois pesos e duas medidas em Ubatuba. O caso do cercado da praia do Cruzeiro, documentado em foto do Luiz Moura, sempre De Olho em Ubatuba, é exemplo dessa apropriação. A indignação com o que acontece é um primeiro passo. Mas, como dizia Santo Agostinho, "A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las". Talvez ainda nos falte a coragem.
Por P.S., cito que já sabia dos eventos em Oscar Bressane: encontrei-me casualmente com o prefeito Jairão, de Tarumã, num corredor de supermercado. Grandes festas abertas a toda a população integram, de alguma forma, o costume de pequenas cidades do Interior, se bem que, a meu ver, com um certo gosto de panis et circens, com o que os romanos continham a plebe, para não ter que usar a pax romana tradicional. Recolho agora de memória: por volta de 1977, 1980, sei lá, houve uma festança como a descrita pelo Eng. Guaracy na cidade de Jales (SP), para comemorar a inauguração da Rodovia dos Três Prefeitos. Chama-se assim porque quando a rodovia, que liga Jales a Aparecida d’Oeste, estava em fase final de construção, o carro que levava três prefeitos de cidades por ela servidas chocou-se, à noite, contra um monte de brita e dois morreram na hora. Outro ficou em coma por meses e depois faleceu também. Hoje a rodovia SP 563 chama-se Euphly Jales e perdeu-se a memória dos prefeitos mortos quando voltavam de São Paulo, à noite, onde tinham ido, em estreita cooperação, ido buscar recursos para suas minúsculas cidades.
A preservação da história, através de nomes de rodovias, nem sempre é justa e, por vezes, é injusta. Euphly Jales deu nome a uma das cidades que fundou, Jales, e deu o nome de seu pai, Francisco, a outra cidade fundada por ele, São Francisco. A rodovia que as liga chama-se, hoje, Rodovia Euphly Jales, mas seria mais justo que tivesse o nome dos Três Prefeitos que morreram por ela. Tanto batalharam que a conseguiram, mas acabaram morrendo nela. Hoje estão esquecidos e, por política, força política, o nome da rodovia nada tem a ver com eles. Lembra-me a Rodovia do Oeste, hoje chamada de Castello Branco, general da ditadura que jamais teve qualquer coisa a ver com projeto e traçado da autoestrada.
Como se vê, uma coisa leva a outra, e a outra, e eis-me aqui fazendo choramingação. Coisa feia.

- Texto originalmente publicado na revista eletrônica O Guaruça